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Putin e Xi Jinping ganham com mudança na Casa Branca

Paulo Rego*

A Casa Branca não é só o maior símbolo da democracia liberal. A cada mandato, o perfil do seu inquilino define as grandes linhas da política internacional e da estratégia de alianças. Em novembro de 2020, quando Joe Biden foi eleito, escrevi nestas páginas que os festejos, um pouco por todo o mundo, uniam todos os que haviam virado costas a Trump; mas não necessariamente a China. Porque o passado político de Biden, sobretudo durante a Administração Obama, demonstrava a sua propensão para a tese de união ocidental contra o “eixo do mal”, cujo epicentro via na China e na Rússia. A guerra da Ucrânia não foi o início da nova “guerra fria”; foi Obama que começou a armar os vizinhos da China, e avançou com a NATO pelo antigo Bloco de Leste.

Trump parece capaz de sobreviver a tudo – até a si próprio. É difícil explicar a humanistas e multilateralistas o lado emocional do conservadorismo americano; mas é hoje óbvio para todos que a estratégia democrata cometeu dois erros fundamentais: primeiro, o ataque jurídico e moral contra o líder da direita republicana perdeu para a estratégia de vitimização, que deu cola ao lado mais radical do “Tea Party”, em vez de o quebrar; depois, a teimosia de Biden, e a incapacidade de o substituírem na corrida presidencial, descamba hoje em episódios, mais do que caricatos, deprimentes. A erupção de vozes democratas contra a “senilidade” de Biden anuncia uma debacle eleitoral na qual parece ser ele o único que não percebe. A sua substituição parece cada vez mais impossível, e a sua manutenção na corrida todos os dias dá pontos a Trump. Quem, sobretudo na Europa, comemorou há quatro anos a derrota republicana, põe agora as mãos na cabeça. Contudo, em Moscovo, e em Pequim, os dados em cima da mesa prenunciam uma nova ordem mundial, que lhes pode ser favorável.

É normal que queira a mudança [na Casa Branca]. Não porque goste de Trump, mas a relação com Biden é claramente hostil, e dificilmente recuperável. E, sobretudo, porque o que a China mais quer é o recuo da NATO, e avanços na globalização da sua economia

Em caso de vitória, cada vez mais provável, nada garante que Trump se aproxime da Rússia e/ou da China. Mas já provou, durante o seu anterior mandato, que não está para sustentar os custos da NATO. E, sem esse esforço, a derrota de Zelensky é certa; porque, sem o apoio direto e comprometido dos Estados Unidos, a Europa não tem capacidade de manter o apoio de que a Ucrânia depende para resistir. Nesse cenário, abre-se espaço para negociações de paz, com a Rússia no papel de vencedora. Trump é suficientemente errático para não se poder dar nada como garantido, mas são essas as contas que Putin hoje faz. E nada o fará para recuar, enquanto não verificar os resultados da eleição norte-americana.

Por outro lado, Trump é uma péssima notícia para as democracias liberais europeias; o que as fará olhar para o resto do mundo com outros olhos. Angela Merkel disse-o claramente que, com Trump na Casa Branca, era inevitável reforçar as relações a Leste; por maioria de razão, com Moscovo e Pequim. Depois da Covid-19, e da invasão da Ucrânia, foi muito criticada por esse “erro”. É verdade que, entretanto, o mundo é diferente; mas as relações de Trump com Londres, Paris, ou Berlim, nunca serão famosas. E, por muito que tenham riscado Putin do seu círculo próximo, os líderes europeus sentir-se-ão tentados a dar outra margem de manobra a Xi Jinping.

Também por isso, Pequim olha com enorme expectativa para as eleições norte-americanas. E é normal que queira a mudança. Não porque goste de Trump, mas a relação com Biden é claramente hostil, e dificilmente recuperável. E, sobretudo, porque o que a China mais quer é o recuo da NATO, e avanços na globalização da sua economia.

*Diretor-Geral do PLATAFORMA

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