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Da retórica ao gatilho

Fernando M. Ferreira, Subdiretor

Condenar a violência é obrigatório. Fingir que surge do nada é irresponsável. O mais recente episódio envolvendo Donald Trump expõe, mais uma vez, o estado de degradação da política norte-americana – para a qual o presidente norte-americano contribuiu de forma decisiva.

Há uma realidade difícil de contornar: a violência tende a gerar mais violência. E, hoje, poucos protagonistas políticos cultivaram um ambiente tão carregado como Trump. Não apenas pela linguagem agressiva, desumanizante e incendiária dirigida a adversários, jornalistas e minorias, mas também por um percurso marcado pela banalização do abuso.

Em 2023, foi considerado civilmente responsável por abuso sexual no caso de E. Jean Carroll; anos antes, na gravação “Access Hollywood”, falou sobre mulheres em termos que transformavam a violência e o consentimento em matéria de bravata. A retórica política deixou de ser confronto de ideias para se aproximar perigosamente da lógica de inimigo – e da cultura de impunidade.

Existe também uma tradução institucional dessa agressividade. As operações do ICE (a “polícia” da imigração) tornaram-se símbolo de uma política migratória marcada por detenções em massa, separação de famílias e um uso excessivo da força – basta recordar o caso de Renée Nicole Good, uma cidadã norte-americana de 37 anos, morta a tiro por um agente do ICE.

Paralelamente, operações conduzidas pela marinha dos Estados Unidos, visando alegadas redes de tráfico de droga em águas internacionais, levantaram questões sérias sobre proporcionalidade e devido processo – com várias mortes que nunca chegam ao escrutínio público. O apoio ao genocídio cometido por Israel contra os palestinianos, o rapto de Maduro, a guerra no Irão, são outros exemplos de violência…desta vez mascarados como política externa.

Nada disto justifica ataques individuais. Mas ajuda a explicar o clima. Quando a violência – verbal ou institucional – se torna linguagem corrente, deixa de ser exceção. Passa a ser parte do ecossistema político. E, nesse ambiente, o passo entre palavra e ato encurta-se perigosamente.

O problema, portanto, não é apenas um indivíduo armado ou instável. É uma cultura política que, gradualmente, perdeu os travões. A escalada é recompensada, a agressividade mobiliza, e o adversário é reduzido a alvo.

Quando a política se alimenta de confronto permanente, não nos devemos surpreender quando este se materializa. Se há lição a retirar deste episódio, é essa: não basta condenar a violência quando ela explode.

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