A passagem dos irmãos Tate por Macau vale menos pelo episódio em si do que pelo que ele revela sobre o tempo em que vivemos. Andrew e Tristan Tate não são apenas influenciadores polémicos ou provocadores profissionais. São produtos acabados de uma cultura que transformou a brutalidade em espetáculo, a misoginia em marca pessoal e a humilhação em forma de entretenimento.
Os irmãos Tate – Andrew e Tristan – são influenciadores digitais conhecidos pelo discurso misógino e pela exaltação de uma masculinidade agressiva e dominadora. Na Roménia, têm enfrentado processos e investigações por suspeitas de tráfico humano, associação criminosa… e, no caso de Andrew, também violação; no Reino Unido, são alvo de várias dezenas de acusações criminais, incluindo tráfico humano, violação e ofensas com violência. Ambos negam tudo.
Nenhum deles foi condenado, ainda… e esse facto deve ser sublinhado. Mas a presunção de inocência não exige suspensão do juízo moral, cegueira voluntária ou indulgência cultural. Não obriga ninguém a fingir que estas figuras são apenas empresários excêntricos ou celebridades inconvenientes. O que os Tate projetam para o espaço público é suficientemente claro.
Os Tate não surgem à margem da sociedade; surgem do seu epicentro. Prosperam num ecossistema digital que recompensa o choque, a violência verbal, a provocação permanente e a simplificação brutal de tudo o que é humano
Eles representam uma das formas mais degradadas de sucesso contemporâneo: a ideia de que a força se mede pela capacidade de intimidar, que a virilidade se prova na humilhação das mulheres, que o poder consiste em exibir dinheiro, cinismo e ausência de escrúpulos. À sua volta construiu-se uma estética de dominação, ressentimento e crueldade vendida como afirmação pessoal. É um lixo moral embalado como autoajuda para homens inseguros.
Talvez seja esse o aspeto mais inquietante. Os Tate não surgem à margem da sociedade; surgem do seu epicentro. Prosperam num ecossistema digital que recompensa o choque, a violência verbal, a provocação permanente e a simplificação brutal de tudo o que é humano. Tornaram-se famosos porque há mercado para isso; e algoritmos que amplificam tudo isto.
Não são apenas um caso mediático; são um sintoma. O seu sucesso diz muito sobre uma época em que a crueldade é confundida com carisma, o preconceito com franqueza e a degradação com liberdade. Diz muito sobre uma sociedade que, tantas vezes, já não distingue entre visibilidade e valor, entre influência e exemplo.
Levá-los a sério não significa engrandecê-los. Significa reconhecer que personagens como estas não são uma excentricidade passageira, mas uma expressão extrema de males bem reais: o ódio às mulheres, a glorificação da violência, o empobrecimento moral do debate público e a transformação da podridão em produto aspiracional.
Os irmãos Tate não são o desvio; são o espelho mais grotesco de muito do que o nosso tempo produziu e agora tolera; e pior ainda, glorifica. Macau é uma cidade aberta, onde a proibição de entrada não faz sentido. Contudo, às vezes não entram jornalistas, académicos e escritores, por questões políticas que aqui não fazem sentido. Mas, se pudesse escolher, era este o tipo de grunhos que mantinha longe.