Em Macau, estamos habituados a discutir os grandes desígnios: diversificação económica, integração regional, posicionamento internacional. Falamos de estratégias, planos quinquenais, investimentos estruturantes. Mas, por vezes, é no detalhe quotidiano que podemos medir a qualidade da governação.
Renovar o Bilhete de Identidade de Residente é um desses testes simples – e reveladores. Quem o fez recentemente sabe do que falo: já nem é necessário marcar atendimento ou enfrentar filas. A renovação pode ser tratada de forma autónoma, numa das várias máquinas de autoatendimento distribuídas pela cidade. O processo é intuitivo, rápido e eficiente. Em poucos minutos, o pedido fica submetido. Sem intermediação obrigatória, sem papelada redundante, sem a cultura do “volte amanhã”.
Este dado é mais significativo do que parece. Não se trata apenas de conveniência; trata-se de arquitetura administrativa. É o resultado de uma aposta consistente no governo eletrónico, na digitalização de procedimentos e na reorganização interna dos serviços públicos. A tecnologia, aqui, não é decorativa – é funcional.
Numa cidade com pouco mais de 600 mil habitantes, a Administração conseguiu construir um ecossistema digital coeso, interoperável e orientado para o utilizador. A Conta Única de Macau, os serviços online integrados e as máquinas de autoatendimento formam um sistema que reduz drasticamente a burocracia.
A comparação internacional ajuda a contextualizar. Em Portugal, por exemplo, a renovação de um documento de identificação pode implicar semanas de espera por marcação, constrangimentos na obtenção de senha e atrasos na emissão. A experiência do utilizador continua longe da fluidez que Macau já normalizou.
Esta eficiência não é apenas um conforto individual; é um ativo estrutural. Primeiro, tem impacto económico direto. Tempo poupado é produtividade ganha. Menos horas desperdiçadas em procedimentos administrativos significam maior eficiência para trabalhadores e empresas. Segundo, reforça a confiança institucional. Um Estado que cumpre com eficácia as suas funções básicas – emitir documentos, processar pedidos, prestar informação – consolida credibilidade. Terceiro, eleva a qualidade de vida: menos desgaste, menos frustração, menos incerteza.
É evidente que existem áreas onde a simplificação pode avançar mais; nenhum sistema é perfeito. Mas, no domínio do governo eletrónico, Macau posiciona-se claramente acima da média internacional. E isso deve ser reconhecido com a mesma frontalidade com que criticamos outras insuficiências.
A sofisticação de uma economia não se mede apenas pela diversidade dos seus setores, mas também pela eficiência das suas instituições. Talvez esta seja uma das transformações silenciosas de Macau. Num mundo onde a burocracia continua a ser sinónimo de atraso, aqui começa a ser sinónimo de competência.