O novo Fundo de Orientação Governamental é apresentado como um instrumento decisivo para acelerar a diversificação económica. A intenção é clara: investir em tecnologia, inovação, modernização industrial e integração regional. A ambição também. O problema é outro: qual é, exatamente, o espaço económico real de Macau nesse tabuleiro?
Falar de tecnologia como vetor central de diversificação exige uma análise fria do contexto regional. A poucos quilómetros, Guangdong é hoje um dos principais polos de inovação da China – e do mundo – com Shenzhen, Guangzhou e Dongguan integradas em cadeias industriais completas, ecossistemas de capital de risco maduros e massa crítica de talento científico e tecnológico.
Uma economia não se diversifica por decreto. Diversifica-se quando identifica nichos onde tem diferenciação clara e defensável: sistema jurídico próprio sob o princípio “um país, dois sistemas”, autonomia regulatória, liberdade cambial, ligação estruturada ao mundo lusófono e capacidade de funcionar como ponte institucional.
Se a aposta tecnológica não estiver firmemente ancorada nessas vantagens competitivas – e não apenas na disponibilidade de capital – o risco é financiar projetos periféricos num ecossistema regional já altamente consolidado.
Se Macau quer ter um papel relevante, ele não pode ser meramente simbólico; tem de oferecer valor acrescentado específico que não possa ser facilmente replicado em Shenzhen ou Guangzhou. Seja como centro de arbitragem e resolução de litígios internacionais, plataforma financeira especializada ou interface jurídica entre a China e os Países de Língua Portuguesa, a diferenciação tem de ser estrutural, não retórica. É aqui que o debate sobre o Fundo deve ganhar densidade.
Investir recursos públicos – ainda que com disciplina de mercado – é uma escolha estratégica. Mas investir sem clarificar função económica pode significar dispersar capital em múltiplas direções sem criar massa crítica em nenhuma. A diversificação exige foco, escala e coerência regulatória, não apenas instrumentos financeiros modernos.
Macau tem ativos singulares: sistema jurídico distinto, enquadramento institucional próprio e ligação histórica ao mundo lusófono. O Fundo só fará sentido se os projetos aprovados estiverem claramente centrados nessas vantagens estruturais e reforçarem esse posicionamento único. Talvez a pergunta não seja se deve competir com Guangdong em alta tecnologia, mas como pode complementar esse ecossistema a partir das suas especificidades.
É neste contexto que a leitura otimista de Henry Lei (páginas 6 e 7 desta edição) ganha relevância. O economista sublinha que o Fundo inaugura uma abordagem mais “proativa”, combinando recursos fiscais com mecanismos de mercado e gestores profissionais na seleção de projetos. A seu ver, a partilha de risco com investidores privados e a integração regional com Hengqin e a Grande Baía poderão criar novos motores de crescimento e reduzir, de forma gradual, a dependência das receitas do Jogo. É uma visão estruturada e tecnicamente consistente.
Mas mesmo admitindo essa arquitetura mais sofisticada, a questão central mantém-se: que tipo de projetos serão priorizados e que posição estratégica ocuparão na hierarquia regional? O próprio sucesso do modelo defendido por Henry Lei dependerá menos da engenharia financeira do Fundo e mais da clareza sobre o papel económico que Macau pretende desempenhar. Sem essa definição, o risco não é apenas investir mal – é investir sem alterar substancialmente a estrutura que se pretende transformar.