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Entre o regresso e o atraso

Fernando M. Ferreira*

O regresso da Uber a Macau tem um simbolismo que ultrapassa a mera mobilidade urbana. Representa, antes de mais, a tentativa de reconciliar a cidade com uma ideia de modernidade que, há muito, se tornou banal noutras geografias. Mas convém não confundir presença com transformação.

Quando a Uber entrou pela primeira vez em Macau, a reação local foi defensiva. O enquadramento legal revelou-se insuficiente, os interesses instalados falaram mais alto e a plataforma acabou por sair pela porta pequena. Hoje, o regresso faz-se em moldes diferentes, mais cautelosos, ajustados a um ambiente regulatório que não permite a liberalização. A pergunta impõe-se: mudou assim tanto?

Basta atravessar a fronteira para perceber o contraste. No Interior da China, a DiDi tornou-se parte integrante do quotidiano. A integração entre pagamento digital, geolocalização, avaliação de motoristas e gestão de dados criou um ecossistema funcional, eficiente e amplamente aceite. Não é apenas uma aplicação de transporte; é uma infraestrutura digital ao serviço da mobilidade urbana.

Uma cidade que se quer internacional, que aposta em eventos, turismo e diversificação económica, não pode continuar a tratar a inovação como exceção tolerada em vez de regra estruturante

Macau, pelo contrário, continua presa a uma lógica híbrida e hesitante. A densidade populacional, a dimensão territorial e a pressão turística exigem soluções tecnológicas robustas, mas o enquadramento institucional mantém-se conservador. A coexistência tensa entre táxis tradicionais e plataformas digitais impede a criação de um verdadeiro mercado concorrencial, onde o consumidor usufrui de melhor serviço, maior transparência tarifária e tempos de espera reduzidos.

Não se trata de defender uma desregulação cega. Trata-se de reconhecer que a mobilidade é um indicador de maturidade urbana. Uma cidade que se quer internacional, que aposta em eventos, turismo e diversificação económica, não pode continuar a tratar a inovação como exceção tolerada em vez de regra estruturante.

O regresso da Uber pode ser um primeiro passo. Mas, se ficar limitado a este modelo mitigado, excessivamente condicionado e incapaz de competir em pé de igualdade, será apenas um gesto simbólico – não uma mudança estruturante. E Macau não precisa de símbolos; precisa de sistemas que funcionem.

Se o Interior da China conseguiu integrar plataformas digitais no seu tecido urbano com eficácia e escala, é legítimo perguntar porque continua Macau a mover-se com tanta cautela. A resposta não está na tecnologia. Está na vontade política e na capacidade de reformar interesses estabelecidos.
Sem isso, a Uber regressa – mas o atraso permanece.

*Editor-chefe do PLATAFORMA

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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