A inauguração de mais uma central nuclear em Guangdong, na cidade de Huizhou, com capacidade para abastecer milhões de pessoas e localizada a cerca de 150 quilómetros de Macau, mostra que a China já fez uma escolha que muitos países continuam a adiar: tratar a energia como questão de soberania, de estabilidade e de poder.
Durante muito tempo, o debate energético foi conduzido como um exercício de intenções. Fala-se de transição, de metas climáticas, de compromissos internacionais – tudo necessário, mas frequentemente desligado da realidade material que sustenta as economias. A eletrificação das sociedades, da indústria à mobilidade, não se faz apenas com ambição política. Faz-se com produção suficiente, contínua e previsível.
É nesse ponto que a energia nuclear regressa ao centro da equação. Não como solução ideal, mas como possível. As energias renováveis são indispensáveis, mas continuam condicionadas por variáveis naturais e limitações tecnológicas. Nenhuma economia avançada pode depender exclusivamente de fontes intermitentes sem comprometer a estabilidade do sistema.
A energia nuclear exige padrões de segurança elevados, transparência e uma capacidade de gestão que nem todos os sistemas políticos conseguem assegurar com credibilidade
A opção chinesa é, antes de mais, pragmática. Ao reforçar a capacidade nuclear numa das regiões mais dinâmicas do país, Pequim garante aquilo que considera essencial: segurança de abastecimento num contexto de crescimento contínuo e de crescente pressão energética. Ao mesmo tempo, insere essa aposta numa estratégia mais ampla de descarbonização, onde o nuclear assume o papel de suporte às metas de neutralidade carbónica.
Isso não elimina os riscos nem as reservas. A energia nuclear exige padrões de segurança elevados, transparência e uma capacidade de gestão que nem todos os sistemas políticos conseguem assegurar com credibilidade. Não é uma escolha neutra, nem isenta de custos políticos. Mas é uma escolha que responde a um problema concreto: como produzir energia suficiente sem travar o crescimento nem comprometer os objetivos climáticos.
Na Grande Baía, onde se cruzam Macau, Hong Kong e Guangdong, esta realidade é particularmente evidente. O aumento do consumo energético não é uma projeção – é um dado presente. A ambição de diversificação económica, a digitalização e a integração regional dependem, cada vez mais, de uma base energética robusta. Ignorar essa dimensão é discutir desenvolvimento no vazio.
O que esta nova central evidencia não é apenas a capacidade de execução da China. É a diferença de abordagem. Enquanto muitas economias permanecem presas a impasses políticos e a ciclos curtos de decisão, Pequim avança com uma lógica de longo prazo, assumindo custos e riscos em nome de estabilidade futura.
Pode discutir-se o modelo ou criticar-se a ausência de debate público. Mas há um facto que se impõe: a transição energética não será feita apenas de intenções. Será feita de decisões difíceis e escolhas que nem sempre são politicamente confortáveis. A China já fez a sua.