Ao visitar o seu apartamento em Hong Kong pela primeira vez desde o incêndio devastador do ano passado, Annie Tse, de 41 anos, foi confrontada com uma escadaria enegrecida que lhe trouxe à memória a fuga por pouco. O incêndio mais mortal em edifícios residenciais no mundo desde 1980 provocou 168 mortos quando consumiu sete dos oito blocos de apartamentos do complexo Wang Fuk Court, em novembro.
Pela primeira vez desde então, cerca de 6.000 residentes começaram esta semana a ter acesso às suas casas, com períodos limitados de três horas para entrarem e recuperarem os seus pertences.
“A sensação foi muito intensa, porque os locais por onde desci naquele dia estão agora todos negros”, disse Tse aos jornalistas após a visita. “Vi que os apartamentos dos vizinhos estavam completamente destruídos por dentro.” Os residentes usaram capacetes, máscaras e luvas e foram acompanhados por assistentes sociais quando regressaram aos seus apartamentos na quinta-feira.
“Pensei naquele dia”, disse Tse, emocionada. “Pensei que podia descer para perceber o que se estava a passar e voltar a subir para avisar os vizinhos, mas o incêndio já era muito grande.”
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“Não havia alarmes de incêndio, muitas pessoas não sabiam.” Uma comissão independente que investiga o incêndio revelou que os alarmes de incêndio em sete dos oito blocos do complexo estavam desligados no dia da tragédia.
O marido de Tse, Bowie Chan, disse à agência France-Presse (AFP) que a mulher foi diagnosticada com depressão após o incêndio e ainda lida com sentimentos de culpa por não ter conseguido alertar os vizinhos. Vídeos e fotografias enviados à AFP por Chan, do apartamento do casal – próximo da origem do incêndio – mostram eletrodomésticos carbonizados e paredes, tetos e roupa cobertos de fuligem.
A porta de plástico do chuveiro encontrava-se derretida, enquanto as pás de uma ventoinha estavam deformadas pelo calor. No entanto, uma fotografia de casamento do casal com os seus quatro gatos permaneceu intacta na parede da sala. “É muito difícil imaginar o que os vizinhos passaram enquanto esperavam ali”, disse Tse.
Mais de 920 habitações ficaram danificadas, algumas completamente destruídas, segundo o departamento de bombeiros. As autoridades de Hong Kong propuseram recomprar os apartamentos pelo valor de mercado antes do incêndio, mas afirmaram que a reconstrução do complexo no mesmo local “não é viável”.
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Outro residente, Jason Kong, criticou o limite de três horas para visitar as casas, dizendo que apenas conseguiu recolher uma pequena parte dos seus pertences. Mostrou imagens aos jornalistas onde se vê que o seu apartamento estava em grande parte intacto, embora uma estante na sala tenha ficado danificada pelo calor “Tenho uma ligação a toda a casa”, disse o homem de 65 anos.
“Não quero dizer adeus. O melhor seria conseguirem repará-la.” O empresário de design de interiores afirmou que a família conseguiu recuperar certificados académicos, fotografias e certidões de nascimento.
Mas continua marcado pelo facto de não ter conseguido salvar o seu cão, Bear Bear, no dia do incêndio. O animal foi resgatado pelos bombeiros, mas morreu horas depois devido à inalação de fumo. “O meu filho ficou muito emocionado quando viu a comida e a tigela do cão”, disse Kong, acrescentando que o filho guardou alguns objetos como recordação.
Entretanto, Bowie Chan mostrou aos jornalistas duas urnas encontradas no apartamento, com as cinzas dos gatos Billy e Charlie, que tinham morrido antes do incêndio. “Queria muito levá-los comigo, porque somos uma família”, afirmou. “A minha mulher conseguiu escapar com os outros dois gatos, e isso já é o mais importante. Tudo o que conseguirmos salvar hoje é um bónus.”