A globalização habituou-nos a apresentar-se como uma máquina sofisticada, flexível e capaz de absorver choques. Porém, depende de passagens estreitas, vulneráveis e perigosamente insubstituíveis. O Estreito de Ormuz é uma das mais importantes.
Por ali passa uma parcela decisiva do petróleo consumido no mundo inteiro, bem como uma parte crucial do gás natural liquefeito que abastece os mercados asiáticos. Bastou um mês para que o seu bloqueio revelasse a fragilidade da economia global.
Quando Ormuz treme, a crise deixa de ser regional; aumentam-se os preços da energia, dos transportes, das indústrias… por arrasto, revisões em baixa das perspetivas de crescimento económico mundial. Mais longe do estreito, na Europa, a inflação acelerou 2.9%, e o crescimento para o quarto trimestre desceu de 1.4 para 0.7%.
O sistema continua desenhado para a eficiência imediata. A economia mundial tornou-se extremamente complexa, mas continua assente em vulnerabilidades muito básicas
Depois, há o icebergue. Durante anos, governos e mercados falaram de resiliência, diversificação de cadeias de abastecimento, autonomia estratégica e redução de dependências críticas. A verdade é que o sistema continua desenhado para a eficiência imediata.
A economia mundial tornou-se extremamente complexa, mas continua assente em vulnerabilidades muito básicas: estreitos, portos, rotas marítimas, matérias-primas… todas dependentes de equilíbrios geopolíticos frágeis.
A Ásia sente essa exposição de forma particularmente intensa. Grande parte da energia que alimenta as suas fábricas, os seus transportes e a sua vida quotidiana passa pelo Estreito de Ormuz.
O momento que vivemos traduz-se numa verdade inconveniente: a globalização também criou fragilidades – exploradas de forma constante por quem a domina. Enquanto a economia internacional continuar dependente de gargalos sem alternativas, cada conflito local poderá tornar-se um choque global. A fragilidade já não é uma falha ocasional do sistema. É parte do seu funcionamento.
P.S.: Queria deixar uma palavra de agradecimento ao Paulo, ao Guilherme e a toda a equipa, pela confiança e por tudo o que temos construído juntos. Entro nesta nova fase no PLATAFORMA, agora como subdiretor, com muita gratidão, sentido de responsabilidade e vontade de continuar a fazer crescer este projeto.