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Macau: A força de ser plataforma da China

Sam Hou Fai deixa em Lisboa três mensagens de força: primeiro, Portugal ratifica o sucesso do modelo “Um País, Dois Sistemas”; o que dilui a pressão, por exemplo, no campo dos direitos, liberdades e garantias. Depois, as partes reconhecem Macau como plataforma para a China, querem “reforçar laços”; ou seja, dão face ao mediador. Finalmente, as “vantagens” do sistema jurídico, da língua, do ambiente económico; e, até, da “História” da “amizade”, temperam o impulso da relação direta com Pequim, que há em Lisboa quem prefira

Paulo Rego, em Lisboa

A primeira visita de Sam Hou Fai ao estrangeiro passa por Madrid, termina em Genebra e Bruxelas; mas o seu epicentro político, e dimensão económica, definem-se logo de início, em Lisboa, onde uma agenda densa e pesada garante a face institucional da deslocação: Mas fixa também a mensagem, repetida e consistente: “reforçar a cooperação” com Portugal; “projetar a plataforma”; oferecer “as vantagens” de Macau; explicar a diversificação e o investimento em Henqin como “oportunidades”.

No duplo sentido, frisa o Chefe do Executivo (CE), no resumo à imprensa antes de partir para Madrid: “Empresas portuguesas que queiram entrar na China”; e “chinesas que queiram vir para Portugal”.

A mensagem passa nos bastidores; Sam Hou Fai projeta nos média o apoio da governação portuguesa. Na voz de Sam Hou Fai, Presidente, primeiro-ministro e ministros “concordam” em usar Macau como plataforma para a China e querem “reforçar relações”.

É Sam Hou Fai quem o diz à imprensa de Macau; única a acompanhar, a par e passo, a saga em três dias: 22 eventos – 17 com a presença de Sam Hou Fai; que não se esquece de elogiar a resistência dos repórteres: “Pude ver que estão mais cansados que eu”.

A imprensa portuguesa dá pouca ou nenhuma importância à presença do Governo de Macau; os encontros oficiais à porta fechada, sem declarações, escapam também à tradicional visibilidade mediática; e nenhum jornalista de Portugal se faz notar na conferência em que Sam Hu Fai resume a viagem: longo discurso, muitas mensagens, poucas perguntas: três – uma do Ou Mun; duas da TDM.

Pilares da plataforma

A passagem por Portugal fixa os três pilares que erguem a narrativa da internacionalização como braço da diversificação: a plataforma sino-lusófona é uma “vantagem” competitiva para os Países de Língua Portuguesa; Hengqin é uma “oportunidade” económica; a diversificação é a “prioridade política”. Mas a “mais completa agenda institucional de sempre”, como frisa o próprio Sam Hou Fai, tem densidade política própria.

Primeiro, porque houve hesitações e dificuldades de agenda; dias antes da deslocação não era nada líquido que assim fosse: Presidente da República, primeiro-ministro, Assembleia da República, dois ministros; até o mais alto magistrado na nação… o pleno de todos os poderes.

Depois, porque é evidente o peso da diplomacia chinesa, que insiste na face institucional da visita. Aliás, o CE agradece isso mesmo à diplomacia chinesa; assume uma estratégia subsidiária do plano nacional de abertura e crescimento; e confirma o apoio da China ao papel de plataforma.

Discurso pragmático; por uns, visto como fraqueza, no sentido da falta de autonomia, menor representatividade; mas que prova a força que tem no campo institucional. Estando o braço de Pequim em jogo; e insistindo na cartada do “alto padrão” da visita, Macau ganha o palco da mediação, sem ter que se impor.

Na reunião com o ministro da Economia, Manuel Castro Almeida, Sam Hou Fai apresenta Macau como elo de ligação entre a China e a Lusofonia; e destaca as vantagens do bilinguismo e do sistema jurídico como para as empresas lusófonas. Quer canalizar a cooperação bilateral para a diversificação económica; foca-se em áreas como a inovação científica, educação e formação, turismo, convenções e exposições. Objetivo último: investimento; convidar empresas portuguesas a investir no eixo Macau/Hengqin.

Estabilidade e progresso

Castro Almeida elogia a estabilidade e o progresso de Macau, desde o regresso à China; e reconhece o interesse das empresas portuguesas em Macau, Grande Baía e Interior da China. Essa vertente empresarial teve peso na mensagem.

Na recepção oficial, com cerca de 400 convidados, Sam Hou Fai projeta uma economia de “alta qualidade”, num “ambiente internacional” de negócios, assente no Estado de Direito e na previsibilidade. Evento esse, no MEO Arena, onde apela às empresas portuguesas que “explorem oportunidades” em Macau, Hengqin, e no Interior da China. Sam Hou Fai lança pistas setoriais: economia digital, economia do mar, tecnologia financeira, sustentabilidade ambiental, comércio electrónico transfronteiriço…

Comércio, tecnologia, turismo, educação, saúde, exposições e cultura, são algumas das áreas em que o CE quer reforçar laços institucionais e empresariais. A viagem fica aliás pontuada por “61 acordos e protocolos”, que Sam Hou Fai promete “fazer cumprir e desenvolver”.

No encontro com representantes da Associação de Sociedades Chinesas em Portugal, sublinha a escolha de Portugal como primeiro destino; traduz “a importância dada ao reforço da cooperação económica”. Por isso incentiva as empresas de Macau a reforçarem laços com Portugal; e destaca, na comitiva, representantes de Macau, Hengqin, e várias outras províncias chinesas.

Recado Seguro

A Presidência da República, em comunicado, defende o “reforço” e o “aprofundamento” da “relação de confiança”; após um encontro no qual é valorizada a cultura macaense, a importância da Escola Portuguesa e a manutenção da língua. Mas vem de António Seguro a única ressalva com picante político: “É essencial que continue a haver cumprimento pleno do quadro jurídico decorrente do processo de transferência da administração”, nomeadamente na proteção dos direitos, liberdades e garantias.

Na reunião com a ministra da Justiça, Rita Alarcão Júdice, Sam Hou Fai explica o quadro jurídico no contexto da integração na China; e pede reforço da cooperação judiciária; nomeadamente em áreas de apoio ao comércio bilateral e à circulação de pessoas. A governante portuguesa sublinhou o progresso em Macau, a preservação da língua e da cultura portuguesa; e o papel de plataforma para a China.

Outros momentos da visita

Quando inaugura em Lisboa a exposição dedicada ao princípio “Um País, Dois Sistemas”, Sam Hou Fai frisa que o modelo, mais do que mera conceção política, é a prova “do progresso” conquistado nas últimas décadas. A cerimónia conta com o deputado José Cesário, que prefere sublinhar “a amizade” entre Portugal, China e Macau.

No encontro com o embaixador da China em Portugal, Yang Yirui, Sam Hou Fai centra-se na cooperação entre Macau e Portugal e na plataforma lusófona. Agradece o “empenho” e “apoio” do MNE e da embaixada nesta visita; ouvindo o embaixador chinês destacar a “grande dimensão” e o “alto padrão” do programa oficial; para além de garantir o apoio da China ao desenvolvimento de Macau e da Grande Baía.

Houve ainda tempo para conhecer mais de uma centena de estudantes de Macau em Portugal; em áreas como Direito, Tradução, Estudos Portugueses, Medicina, Inteligência Artificial, Engenharia, Economia e Arquitetura.

O momento “mais comovente” da visita; confessa Sam Hou Fai, porque lhe faz lembrar os tempos em que ele era um deles; mas também porque estes são os “jovens que depois vão ajudar a desenvolver Macau e o país”. Por isso, remata, é tão importante investir “na formação, na comunicação intercultural”… no fundo, na capacidade de Macau “ser competente” no papel de fazer a ponte entre a China e a Lusofonia.

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