A mudança de liderança na pasta de Economia e Finanças acontece num contexto em que os principais desafios da economia de Macau permanecem inalterados, colocando o foco no perfil e na capacidade de execução do próximo secretário.
No plano técnico e político, o professor de Administração Pública da Universidade de Macau, Kin Sun Chan refere que o titular da pasta deve possuir não apenas conhecimento, mas capacidade de aplicação: “O secretário deve não só possuir conhecimentos especializados em gestão macroeconómica e finanças públicas, mas, mais importante ainda, a capacidade de traduzir esse conhecimento em instrumentos eficazes de governação”.
Essa exigência inclui também competências de articulação: “isto implica ser um comunicador excecional, capaz de estabelecer um diálogo aberto com os setores empresarial e laboral de Macau, bem como com associações profissionais e organizações juvenis”, acrescenta o académico.
Kuai Peng Ip, reitor do Instituto de Investigação sobre os Países de Língua Portuguesa da Universidade Cidade de Macau, acrescenta uma dimensão de orientação política e pragmatismo à função. O próximo secretário deve ter “uma sólida formação em economia e finanças, uma posição política clara e um compromisso pragmático com a reforma”, sendo essencial “alinhar-se com as políticas do Governo Central para assegurar o apoio nacional”.
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O académico sublinha ainda a necessidade de evitar resultados superficiais, defendendo que o secretário deve “evitar a busca de indicadores de curto prazo e de resultados superficiais”, privilegiando antes “a otimização industrial, a estabilidade fiscal e os benefícios concretos para os residentes”.

A execução surge como uma das principais fragilidades do modelo atual. Kin Sun Chan identifica uma lacuna estrutural: “subsiste margem para melhoria no acompanhamento contínuo das políticas e na avaliação sistemática”. E concretiza: “a Direcção dos Serviços de Estatística e Censos fornece atualmente relatórios sistemáticos apenas sobre uma parte das indústrias emergentes, faltando uma monitorização abrangente e dinâmica da eficácia do desenvolvimento das ‘Quatro Novas’ indústrias”.
Neste contexto, o novo secretário terá de reforçar a capacidade institucional. “Deve possuir fortes capacidades de coordenação e execução de políticas” e “estabelecer mecanismos eficazes de avaliação e retroalimentação”, defende Kin Sun Chan, sublinhando que “só através de uma governação mais refinada será possível transformar grandes orientações estratégicas em resultados concretos”.
No plano económico, os constrangimentos estruturais mantêm-se, com destaque para a limitada diversificação e a fragilidade do tecido empresarial. Henry Lei defende uma mudança de paradigma nos instrumentos públicos: “É igualmente necessário passar de um modelo convencional baseado em subsídios para um modelo baseado em participação de capital, com uma abordagem assente em marcos (milestones), que possa também criar incentivos para atrair capital privado externo”.
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A integração regional continua a ser central, mas com desafios concretos. O economista sublinha que “o novo secretário deve desempenhar um papel de garante, assegurando os interesses de Macau, incluindo a participação de empresas locais, profissionais e instituições financeiras em projetos em Hengqin e na GBA com forte potencial”.
Ao mesmo tempo, os resultados dessa integração continuam limitados. Henry Lei refere que “a integração de Macau com Hengqin e com a GBA ainda não produziu resultados tangíveis para a generalidade da população, o que não só fica aquém das expectativas da sociedade, como também tem gerado dúvidas por parte do público”.

Foco interno
No plano interno, a economia comunitária continua pressionada. Sales Marques aponta que “a economia comunitária continua deprimida”, num contexto em que “os festivais de consumo” têm um efeito reduzido, sendo “uma medida muito limitada no tempo e nos resultados”.
O economista é claro quanto ao alcance dessas políticas: “Qualquer economista dirá que estes estímulos quantitativos à procura são paliativos”, defendendo que muitas PME “necessitam de apoio para serem reconvertidas, modernizadas ou ambas”.
A recuperação depende também da dinâmica externa. “Só com um aumento significativo da procura induzida pelo turismo, pode a economia comunitária ressuscitar”, afirma Sales Marques, apontando para mudanças no perfil do consumidor e nas exigências do mercado.
Outro ponto identificado prende-se com a projeção internacional de Macau. Sales Marques considera que “existe um défice bastante elevado na presença direta de Macau junto dos seus principais mercados” e sublinha que “a importância dessa componente não deve ser subestimada”.
Quanto ao legado recente, Henry Lei reconhece iniciativas positivas, mas com impacto ainda limitado. “O Governo da RAEM lançou recentemente vários novos projetos, como o Parque Industrial de Ciência e Tecnologia de Macau e o Fundo de Orientação Governamental”, classificando-os como “essenciais e relevantes”.
Ainda assim, sublinha que, “apesar da recuperação robusta dos setores do turismo e do Jogo, as pequenas e médias empresas e o setor não ligado ao Jogo continuam a enfrentar uma série de desafios internos e externos”.
O próximo secretário assumirá funções com uma agenda definida, mas com pressão acrescida na execução, na coordenação regional e na obtenção de resultados concretos ao nível da diversificação económica.
O perfil que se impõe:
- “Fortes capacidades de coordenação e execução” – Kin Sun Chan
- “Comunicador excecional” – Kin Sun Chan
- “Sólida formação em economia e finanças” – Kuai Peng Ip
- “Posição política clara” – Kuai Peng Ip
- “Plenamente reconhecido pelo Governo Central” – Henry Lei
- “Papel de garante” – Henry Lei
- “Bom negociador” – Sales Marques