A 1 de maio de 1886, Chicago amanheceu paralisada. Cerca de quarenta mil trabalhadores abandonaram os postos de trabalho e oitenta mil marcharam pela Michigan Avenue, pedindo aquilo que parecia, naquele tempo, uma quase-utopia: uma jornada de oito horas.
A reivindicação cabia numa palavra de ordem: oito horas para trabalhar, oito horas para descansar, oito horas para fazer o que quiser. Cento e quarenta anos depois, ainda há quem trabalhe sem descansar e sem escolher.
Chicago, 1886: o primeiro passo da marcha que nunca parou

Nos dias seguintes, a cidade entrou em ebulição. A 3 de maio, a polícia abriu fogo sobre operários junto à fábrica McCormick, matando pelo menos dois grevistas. No dia 4, anarquistas e sindicalistas convocaram um comício de protestos na praça Haymarket. Foi um ato rotineiro de oratória, até alguém atirar uma bomba. Sete agentes morreram, tal como vários manifestantes. Quem lançou a bomba nunca foi identificado, mas Chicago precisava de culpados.
Foi assim que oito operários foram detidos e julgados num processo que historiadores viriam a considerar profundamente irregular. A 11 de novembro de 1887, as duas vozes da mobilização, August Spies (editor de um jornal operatório de língua alemã) e Albert Parsons (tipógrafo radicado em Texas), morreram enforcados, juntamente com Adolph Fischer e George Engel.
Em julho de 1889, o congresso fundador da Segunda Internacional Socialista, em Paris, decidiu que o 1 de maio passaria a ser dia de manifestação operária mundial, em memória dos enforcados de Haymarket. A consagração exigiria mais sangue: a 1 de maio de 1891, em Fourmies (França), a polícia disparou sobre uma manifestação pacífica e matou dez pessoas. Longe de extinguir o movimento, o massacre transformou definitivamente o dia em ritual de memória.
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Portugal: do silêncio à praça

Em Portugal, o dia 1 de maio começou cedo e foi proibido cedo. Sob o Estado Novo, celebrar o Dia do Trabalhador exigia coragem, pois assinalar a data, muitas vezes resultava em consequências graves para quem participava.
Na primavera de 1974, tudo se inverteu. A 25 de abril, os capitães derrubaram o regime. Dois dias depois, a 27 de abril, a Junta de Salvação Nacional decretava o 1 de maio feriado nacional – uma das primeiras conquistas legais da revolução, restando quatro dias para preparar a maior manifestação alguma vez vista em território português. Estima-se que, pelo menos, um milhão de pessoas tenham saído à rua em mais de setenta localidades.
Em Lisboa, a concentração na Alameda D. Afonso Henriques juntou pessoas vindas de todo o país, com cravo ao peito. O cortejo terminou no antigo estádio da FNAT, rebatizado naquele dia como Estádio Primeiro de Maio. Lá dentro, perante mais de cem mil pessoas, falaram pela primeira vez ao público Mário Soares e Álvaro Cunhal, regressados do exílio. No Porto, milhares concentraram-se nos Aliados. Em Coimbra, em Braga, em vilas e aldeias do interior, ergueram-se palanques improvisados.
Para muitos historiadores, foi o verdadeiro plebiscito da revolução, o momento em que a sociedade portuguesa validou na rua aquilo que os militares haviam iniciado na madrugada do 25.
1º de Maio: o dia que reflete lutas difíceis, repressão e conquistas históricas que moldam o mundo do trabalho
Hoje, o Dia Internacional dos Trabalhadores é celebrado em mais de oitenta países, mas raramente do mesmo modo. Em Portugal, a marcha repete-se anualmente.
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Na China, oficializado em 1949, após a fundação da República Popular, o feriado foi durante décadas marcado por desfiles e cerimónias de homenagem aos “trabalhadores-modelo”. Em 1999, o primeiro-ministro Zhu Rongji transformou-o numa “semana dourada” de cinco dias, redesenhada para estimular o consumo interno.
Subsiste, porém, um paradoxo desconfortável: a celebração do trabalho coexiste com o sistema 996 – jornadas das nove às nove, durante seis dias por semana, comuns em parte do setor tecnológico chinês. Como circulou nas redes sociais chinesas, a ironia não escapa a ninguém: trabalhar oitenta horas semanais, para descansar uma semana em homenagem aos que lutaram por trabalhar oito horas por dia.
É talvez nesse contraste que reside a atualidade. As reivindicações de 1886, ou seja, os limites à jornada, os salários justos e o direito a descansar, não desapareceram, mas mudaram de roupagem.
A precariedade, a gig economy, os algoritmos que distribuem turnos a estafetas e motoristas, a inteligência artificial que reorganiza profissões inteiras, o teletrabalho e a difusa fronteira entre a vida pessoal e profissional e o burnout transformado em diagnóstico em massa, compõem a paisagem laboral em que o 1 de maio de 2026 se inscreve.
A história começou com uma reivindicação clara: oito horas. Acabou por se tornar algo mais difícil de medir – o direito de viver uma vida que não seja apenas trabalho. É por isso que, quase um século e meio depois da marcha de Chicago, dos cravos da Alameda e dos panfletos em Pequim, há ainda quem se levante a 1 de Maio e vá à rua.