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Brasil encerra principal manicómio, onde morreram cerca de 60 mil pessoas, e transfere últimos sobreviventes

O Brasil desativou esta semana o Hospital Colónia de Barbacena, no estado de Minas Gerais, um dos mais controversos e simbólicos estabelecimentos psiquiátricos da história do país. Após mais de um século de funcionamento, os últimos 14 pacientes, todos com mais de 70 anos, foram transferidos para residências terapêuticas, marcando o fim definitivo da instituição.

Criado em 1903, o manicómio nasceu com a finalidade de acolher pessoas com transtornos mentais, mas acabou por se tornar um símbolo extremo de exclusão social e institucionalização em massa. Ao longo das décadas, o espaço foi alvo de denúncias recorrentes de maus-tratos, negligência e condições desumanas, num modelo que acabou por abranger não apenas doentes psiquiátricos, mas também pessoas marginalizadas por razões sociais.

Estima-se que cerca de 60 mil pessoas tenham morrido no interior da instituição até à década de 1980, muitas vítimas de fome, frio e doenças como diarreia, num contexto de ausência de cuidados médicos adequados. Relatos históricos apontam ainda que pelo menos 1.800 corpos terão sido utilizados em aulas de anatomia em universidades, evidenciando a dimensão da exploração associada ao hospital ao longo do seu funcionamento.

O processo de encerramento já vinha sendo preparado há vários anos, com a transferência progressiva dos utentes. No total, cerca de uma centena de pacientes altamente dependentes foi sendo integrada em estruturas alternativas, incluindo famílias, comunidades terapêuticas e unidades residenciais com apoio permanente. O paciente mais velho tinha 91 anos.

Com o encerramento, foi também inaugurado no local o Museu da Loucura, dedicado à preservação da memória do que foi descrito como uma das páginas mais sombrias da psiquiatria brasileira. O espaço reúne documentação histórica, fotografias e objetos utilizados no hospital, procurando dar visibilidade às condições em que viveram milhares de pessoas internadas ao longo do século XX.

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O caso de Barbacena é frequentemente citado como um exemplo extremo de institucionalização psiquiátrica e exclusão social, abrangendo não apenas pessoas com doença mental, mas também alcoólicos, epilépticos, mulheres consideradas “desviantes”, grávidas solteiras, homossexuais, militantes políticos e pessoas em situação de pobreza ou abandono.

Em muitos períodos da sua história, o hospital funcionou com recursos humanos mínimos, chegando a operar sem médicos ou enfermeiros em determinadas fases, dependendo sobretudo de vigilância informal e controlo coercivo dos internados.

O encerramento definitivo do Hospital Colónia de Barbacena é visto por especialistas como o fim de uma era de manicómios de grande escala no Brasil, alinhando-se com uma transição mais ampla para modelos comunitários de saúde mental.

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