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Medo que mata

Guilherme Rego*

A China precisa de Macau, mas Macau precisa muito mais da China; até para ser Macau. A ligação a Pequim é cada vez maior, e mais desejada. É evidente na cidade, pela forma como o poder fala, as associações e setores de atividade agem. Contudo, pensa-se muito no que Pequim pode dar a Macau, e não no que Macau pode, e deve, dar a Pequim. A longo prazo, é a segunda questão que valida e prolonga a autonomia local. O mindset atual ainda não se apercebe dessa cláusula; e ao mesmo tempo que luta pelo abono da Mãe Pátria, tem medo que a sua aproximação roube empregos e oportunidades. Esse protecionismo exacerbado dá conforto à população local, mas desvaloriza o efeito altamente positivo da competitividade profissional e empresarial.

Hoje, temos uma cidade que não tem grande qualificação para, por exemplo, montar um hub lusófono de relações culturais, económicas e políticas com a China. Diga-se de passagem, Macau só se distingue em duas vertentes: uma é a sua herança cultural e bilinguismo; outra paga tudo, organiza tudo, mas não faz parte do dicionário da nova era da diversificação – o jogo. Sendo assim, mais importante é dar cartas na Lusofonia.

Acontece que há medo de agir em antecipação. Por outras palavras, de usufruir da autonomia, delegando o poder e responsabilidade a Pequim. Esta inércia do Governo de Macau sente-se em várias frentes, e tem levado a uma comunicação mais estreita das entidades privadas com o poder central, porque aí vê abertura, e sobretudo resultados. Mas este bypass é perigosíssimo, porque fratura com o potencial da RAEM e manda a mensagem a Pequim de que mais vale assumir as rédeas diretamente. A falta de proatividade e coragem em assumir o desenho das pontes cria uma geração sem condições para lidar com o mundo – não o conhece e tem medo de o ter. E assim, o papel de Macau fica turvo nas águas da Grande Baía.

Tem de haver algum controlo local das linhas a seguir, e de como o fazer. Não do ponto de vista de bloquear a mão de Pequim, mas de acrescentar e complementar o desenvolvimento nacional diversificado e multilateral.

Crescem rumores da incapacidade de Macau negociar o seu futuro na Zona de Cooperação em Hengqin, deixando a condução para Guangdong. No fim, haverá consequências, quer para a diversificação económica, quer para a ponte com o ocidente. Ainda é cedo para fazer um balanço, mas a subserviência, muitas vezes cega e sem espírito crítico, apaga o caráter distinto que valoriza Macau.

*Diretor-Executivo do PLATAFORMA

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