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Globalização seletiva

Guilherme Rego*

A História repete-se. Raramente a memória serve para evitar que o passado ressuscite no presente. Os ciclos batem à porta, impedem um futuro que os rompa. Mas num mundo moderno, as nuances decuplicam. A Guerra Fria não foi munida do suporte tecnológico, nem as economias estavam tão encadeadas como agora. São poucos os que, entre os pingos da chuva, resistem a optar por um dos blocos.

Quando a era da globalização nasceu, pensava-se que quanto mais as economias estivessem ligadas, menor a probabilidade de entrarem em guerra. O otimismo acaba sempre por cair nas mãos do oportunismo. Na verdade, quanto mais interligadas, maior a dependência de uma à outra. Esse condicionalismo é um trunfo utilizado vezes sem conta, e corrói a coexistência. Quantos países não condenaram a invasão da Rússia devido à dependência económica ou energética? Quantas vezes os EUA não utilizou a hegemonia do dólar para valer os seus interesses no mundo?

A ONU é incapaz de mutar os interesses nacionais em bem comum. A sua própria estrutura, com membros permanentes com poder de veto nos dois lados da trincheira, perpetua a divisão internacional. Surgem então movimentos alternativos, como os BRICS: cada vez com mais membros, e com a ideia de utilizar uma moeda comum para as trocas comerciais, desgastados pela dependência ao dólar. Estes movimentos, porém, não são inclusivos. É uma globalização seletiva, que deixa de parte e enfraquece quem não adota a mesma visão.

Pelo mundo fora, o protecionismo ganha força, e raramente pára na lomba económica; ramifica para a área cultural e identitária, promovendo a demonização, ódios e divisões. Esse caldo protecionista elegeu Trump, Bolsonaro, Meloni, e consolida o crescimento do radicalismo na Europa; Portugal que o diga… O Brexit é também consequência disso, as guerras atuais são exacerbadas, e defendidas sob o mesmo princípio.

Com a retoma das conversas entre a China e os Estados Unidos, foi dito que não concordavam numa série de questões, mas que isso não podia levar a um conflito entre as partes. Embora tenham reatado comunicações ao mais alto nível, ainda estão longe de uma competição saudável, onde o protecionismo não bloqueie a ligação entre os povos. A desinformação prolifera, e os blocos consolidam-se. Estes muros não erodem com o tempo; antes se destroem com líderes que não tenham medo da abertura. Sem globalização não há desenvolvimento mundial e cresce a pobreza. As guerras são muitas vezes consequência da tentativa de fuga a um futuro que recusa ceder à morte lenta.

*Diretor-Executivo do PLATAFORMA

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Generalist media, focusing on the relationship between Portuguese-speaking countries and China.

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