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Instabilidade e foco interno

Paulo Rego*

A vitória da Aliança Democrática, por apenas mais dois deputados que o Partido Socialista, abre um dilema de governação: mesmo com o apoio da Iniciativa Liberal, para ser primeiro-ministro Luís Montenegro precisa do apoio da direita radical do Chega. Se não o fizer, arrisca uma crise de governação; se o fizer, arrisca-se a pagar caro por essa aliança, a médio prazo. Essa instabilidade foca hoje o pensamento português no seu umbigo parlamentar; o que dificulta a reflexão sobre a frente externa. No curto prazo, é um mau sinal para o projeto lusófono – ou as relações entre Lisboa e Pequim.

Tradicionalmente, o PSD está mais próximo do arco atlântico e da visão anglo-saxónica do mundo; porque a base ideológica do PS vem da versão multilateralista da Internacional Socialista de Olof Palm e Willy Brandt. Mas também é verdade que essa barreira ideológica é hoje falaciosa. Veja-se, por exemplo, a governação económica do centro-esquerda de António Costa e Mário Centeno, que raptou ao centro-direita a bandeira do controlo do défice e das contas certas.

A questão central, no que toca a Macau, e ao seu potencial de mediação na plataforma sino-lusófona, é a de saber quem sucede a João Cravinho no Ministério dos Negócios Estrangeiros em Lisboa – e que visão do mundo nos traz. Sobretudo após a invasão russa da Ucrânia, e da eliminação da Huawei da rede de 5G em Portugal – por clara pressão de Washington – a diplomacia portuguesa afastou-se da posição que a tinha aproximado da China. Na teoria, Lisboa e Pequim têm a mais alta parceria estratégica, “global e abrangente”, o que permitiu o fortíssimo investimento chinês em Portugal, especialmente relevante após a crise de 2008. Na prática, ultimamente não tem sido bem assim.

Não é por isso líquido que o centro-direita venha a adotar uma posição ainda mais rendida à pressão anglo-saxónica. Porque a última que o centro-esquerda português seguiu excedeu as expectativas mais negativas que a China poderia ter. O desagrado de Pequim pode até estar na base; por exemplo, da restrição dos direitos de residência em Macau; ou da política de abertura para a isenção de vistos. Portugal ficou de fora da primeira lista que facilita as viagens à China, o que se justificaria por nela pontuarem as maiores economias do mundo. Já na segunda lista, divulgada na semana passada, surgem países como o Luxemburgo ou a Polónia… e Portugal continua de fora.

Há sempre argumentos na base do messianismo democrático contra a China. Sempre houve; não são novos nem fazem hoje mais sentido do que faziam quando Portugal deles prescindiu, em nome de Macau, e dos interesses que geriu com a China. Porque há também sempre bons argumentos para que um país europeu, e universalista, prefira posicionar-se de forma mais equidistante e imparcial, porque é do seu interesse. Aliás, como fazem outros países europeus, como a Alemanha e a França; ou outras nações lusófonas, como o Brasil e Angola.
Por mais inevitáveis que sejam as relações estratégicas e de defesa com os Estados Unidos, pensar no futuro do mundo sem relações económicas e políticas com a China não faz qualquer sentido. No caso específico de Macau, é mesmo impossível e absurdo. Portugal deve isso a Macau; e espera-se que o novo governo português dê sinais claros dessa consciência. Aí está uma área em que é fácil fazer melhor do que a última versão socialista.

*Diretor-Geral do PLATAFORMA

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