Sejamos claros: o fim da crise só chegou aos casinos. Na vida real, está instalada a insatisfação; e já ninguém a cala. Basta ler os jornais chineses, e os inquéritos de opinião, para ver que ninguém quer saber do Produto Interno Bruto, da Reserva Estratégica, da receita dos casinos, ou dos negócios da plataforma… Nada disso tem a ver com o cidadão comum, que enfrenta a inflação, o aumento das rendas, o fecho das lojas a retalho, a escassez de emprego, a estagnação dos salários… O foco está na redistribuição per capita – na falta dela – e no fosso das desigualdades. Nos regimes em que o povo vota, estes cenários definem eleições – ditam a mudança. Não é o caso em Macau; mas, também aqui, este estado de alma em nada beneficia o atual Governo.
Sabe-se como isto funciona: as autoridades chinesas conversam com os membros do Colégio Eleitoral – por elas convidados – e explicam os motivos pelos quais devem apoiar o candidato que indicam. Não vou entrar por aí… é o que é. O dilema que Pequim hoje enfrenta está nos critérios da escolha; e nos sinais de um futuro melhor. Quem, verdadeiramente, apoia hoje este Governo? Talvez Pequim… em nome da estabilidade, e dos méritos que lhe reconheça. Mas nem isso é hoje claro. Os líderes tradicionais, os liberais, os homens de negócio, o cidadão comum, vivem em perceção de crise – e descrédito. Até os casinos, satisfeitos com a receita, atribuem-na aos vistos individuais decididos no Continente – e não à política local. Aliás, andam manifestamente irritados com o Governo da RAEM, que lhes impõe uma série de obrigações, não apenas financeiras, em setores que não lhes dizem respeito. O ambiente está muito tenso.
Nada disto é bom em ano de eleições; tudo isto anuncia um futuro mandato muito difícil. Macau vive uma crise real, que afeta a maioria da população. Na retração dos negócios, no nível de vida; na relação com o Palácio, na falta de expectativas… a angústia é generalizada. Não é por mudar o inquilino do Palácio que as coisas mudam. Esse raciocínio seria demasiado simplista e intelectualmente desonesto. Mas é preciso outra energia, outra visão, outra relação com os mais variados setores económicos, sociais, e políticos.
Pode a mesma equipa fazê-lo? Pode. Mas é um exercício mais difícil. Porque a mudança, muitas vezes, faz-se precisamente criando a expectativa de que tudo pode mudar. E é mais difícil convencer seja quem for de que tudo muda, ficando tudo na mesma. Os bancos andam a promover rondas negociais com potenciais investidores; querem fazer negócio, alavancar investimentos; seja aqui ou na Grande Baía. Mas ninguém quer. Mesmo quem tem dinheiro de sobra, e nada tem a ver com os problemas do cidadão comum; sinaliza a crise de confiança, económica e política – sempre ligadas. Ou seja, aguardam por melhores dias, por cenários credíveis; dizem que sim ao investimento na Grande Baía; porque é um erro político dizer que não; mas arrastam decisões que, no fundo, não querem tomar. Não está mesmo nada fácil.
Pequim tem aqui um problema sério. A decisão, sensível, que tomar este ano, não cairá em cima do Palácio da Praia Grande; será assacada a quem manda. O que é natural – e justo. É verdade que a crise não está só em Macau; é nacional, se não for mesmo global. Mas a população não quer saber disso; quer ver o problema resolvido; quer pelo menos sinais de que há mais vida para além desta. Não é nada tranquilo o cenário para quem decide; e é tudo menos dourada a cadeira de quem quer ficar a resolver isto.
*Diretor-Geral do PLATAFORMA