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Dragão tecnológico com cauda de fora

Paulo Rego*

A terceira sessão plenária do 20º Comitê Central do Partido Comunista, na semana passada, em Pequim, deitou por terra a expectativa de grandes mudanças. Antes transmite a imagem de estabilidade do regime – e da liderança de Xi Jinping – mantendo o foco na modernização das indústrias do futuro. Faz sentido, mas deixa no ar muitas incertezas; porque não responde a reformas de fôlego, nomeadamente na política externa, de forma a impulsionar as exportações.

O consumo interno implica riscos de inflação, ainda mais no contexto de uma crise imobiliária, prolongada; aumento da dívida; e baixos níveis de confiança, quer nas empresas, quer nos consumidores. Será por isso o investimento público a empurrar a modernização tecnológica; circunstância ainda mais difícil quando a margem orçamental é reduzida. Por outro lado, a tensão comercial mantém-se, com o ocidente a bloquear exportações chinesas. E é neste contexto que a prioridade na capacidade produtiva, teoricamente correta, enfrenta desafios difíceis, no curto e no médio prazo.

O objetivo é “promover avanços revolucionários em tecnologia, alocação inovadora de fatores de produção e transformação e modernização industrial profunda”, lê-se no documento estratégico, que lista indústrias de ponta como as “tecnologias da informação de nova geração, inteligência artificial, aviação, indústria aeroespacial, novas energias, novos materiais, equipamentos de ponta, biomedicina e tecnologia quântica”.

Faz sentido, mas não chega. Porque tudo isso leva tempo, e a China enfrenta uma espécie de quadratura do círculo: não pode abusar do consumo interno, nem do investimento público; e está bloqueada nas exportações. A questão não é omitida no documento estratégico; aliás, já antes Xi Jinping lançara a tese da “dupla circulação”; no fundo, conjugando consumo interno e mercados externos. Visão, essa, crucial; porque, mesmo que no médio prazo as novas indústrias conquistem o futuro, o ciclo de crescimento chinês precisa de exportações e de investimento estrangeiro. No rescaldo da sessão plenária, a dúvida que se coloca é que essa prioridade não é clara; está lá, mas é mais discreta do que muitos esperavam. Incluindo Macau que, dada a sua História, nível de infraestruturas, e plano de integração regional, muito beneficiaria de uma aposta firme e na captação de investimento e na conquista de mercados. Aproveitando as “novas políticas” para “melhorar os seus cenários económicos, solidificando o seu papel como contribuinte importante para as ambições económicas mais amplas da China”, como explicou ao PLATAFORMA, na semana passada, Pan Wei, catedrático na Universidade de Macau.

Os números são o que são; e o aumento das exportações tem de ser uma prioridade. Como, aliás, sempre foi; razão pela qual não deixaria de ser, precisamente quando é mais preciso. O nó górdio emaranha-se em três partes: por um lado, o bloqueio a ocidente, onde se exigem mais cedências do que Pequim está disposta a dar; depois, porque qualquer inversão brusca de políticas daria nesta altura um sinal de fragilidade que o regime rejeita; por último, porque vinga no núcleo da governação de Xi Jinping que, faça o que fizer, Estados Unidos e Europa continuarão a erguer muros ao crescimento e à influência de quem os desafia. Razão pela qual, até ver, segue o seu curso a “nova guerra fria”, que atira a China para geografias como a dos BRICS, bloco de aliados cada vez mais antiamericano.

*Diretor-Geral do PLATAFORMA

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