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A bazuca de confetti

João Gonçalves Pereira*

Esta semana, o relatório do Conselho de Finanças Públicas – antevendo uma queda do PIB entre 7,5% e 11,8%, um défice que pode chegar a 9% e uma taxa de desemprego a ultrapassar 13% – conseguiu a proeza de levar finalmente António Costa a declarar publicamente uma evidência. Como disse o primeiro-ministro no Parlamento, os custos económicos e sociais provocados pela Covid-19 “são absolutamente brutais”.

E no entanto, embora António Costa o diga e saiba que esse impacto brutal existe, o Governo continua a primar pelo falhanço e a ineficiência na sua tarefa de apoiar as empresas e os cidadãos. O excesso de burocracia, quer nos processos de lay-off quer na atribuição de linhas de crédito, levou a que apenas metade das verbas tenham sido atribuídas, desde o anúncio da existência dessas linhas de apoio. Em dois meses e meio, portanto.

Preocupante, que o dinheiro não chegue à tesouraria das empresas e as empurre para as insolvências e os despedimentos. Mas também infelizmente expectável, a partir do momento e que o Governo decidiu não seguir o caminho proposto pelo CDS-PP, de atribuição direta dos apoios pelo Estado através por exemplo do Banco de Fomento, optando antes por recorrer à intermediação das instituições de crédito, ou seja os bancos.

O que é curioso, no entanto, é que ao mesmo tempo em que António Costa destacava a brutalidade do impacto da pandemia ao nível económico e social, o seu ministro Siza Vieira tenha dado uma entrevista a uma revista semanal cujo título foi o de que “Vamos ter mais recursos nos próximos anos do que alguma vez tivemos na nossa história democrática”. Satisfeitíssimo, o ministro da Economia e da Transição Digital (Transição sobre a qual já agora nunca mais se ouviu falar, depois de tão badalada como prioridade estratégica) continuava esta semana a falar de bazucas, contando ter já no bolso o dinheiro proveniente da União Europeia e pejado de um otimismo impossivelmente explicável.  

Aguardemos, continuemos a aguardar, essa portentosa bazuca de que fala o Governo. Quando ela finalmente chegar, a realidade se encarregará de comprovar a sua eficácia

Adicionalmente, a mesma entrevista destacava ainda: “Os próximos meses são ainda de apoio de emergência às empresas e às famílias, mas segue-se um impulso forte para fazer crescer o País, com a ajuda decisiva do fundo de recuperação proposto pela Comissão Europeia”. Ora basta regressar ao relatório do Conselho de Finanças Públicas para entendermos que o que aí vem será tudo menos um impulso de crescimento. O que teremos será uma recessão que fará a bazuca de Siza Vieira parecer um daqueles canhões que disparam confetti nas festas.

200 a 300 mil empregos perdidos, deflação, exportações a cair um quarto do total, a calamidade está bem expressa no relatório do CFP. E contra isso, o governo socialista acena com visões que são autênticas miragens e fala na importância dos planos. “É importante um plano para a TAP”, um plano para isto e outro plano para aquilo, todos os planos depois enfiados num macro plano de recuperação que, como uma boa figura paterna, tudo planificará para que os filhos planinhos cresçam e sejam saudáveis.

Infelizmente, enquanto o Governo planifica e convida personalidades como António Costa e Silva para o ajudarem a melhor planificar, a realidade não planeada impõe-se. Os restaurantes não servem almoços, os hotéis estão vazios, os taxistas não faturam, as micro e pequenas empresas estagnam ou encerram as suas portas. O governo fala de bazucas mas todas essas pessoas, o que vêm, é o chumbinho de uma pressão de ar, quando não ouvem mesmo apenas o som de uma pistola de alarme.

Aguardemos, continuemos a aguardar, essa portentosa bazuca de que fala o Governo. Quando ela finalmente chegar, a realidade se encarregará de comprovar a sua eficácia.  

*Deputado do Centro Democrático Social-Partido Popular (CDS-PP) à Assembleia da República Portuguesa

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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