Usar a plataforma de Macau para Investir em países lusófonos

por Arsenio Reis

Realizou-se em Macau a 5.ª Conferência Ministerial do Fórum Macau, com a presença do primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, o primeiro-ministro português, António Costa, o primeiro-ministro da Guiné-Bissau, Baciro Djá, o primeiro-ministro de Moçambique, Carlos Agostinho do Rosário e o primeiro-ministro de Cabo Verde, Ulisses Correia e Silva, assim como delegações do Brasil, Timor-Leste e Angola. Tais presenças notáveis demonstram a importância atribuída ao fórum por parte dos países envolvidos.

Para além da assinatura de um plano de ação para a cooperação comercial e de outros documentos relacionados, é também assinado nesta conferência um acordo de investimento que é alvo de grande atenção. Trata-se da aquisição por parte da empresa macaense KNJ de 30% do grupo português Global Media pelo valor de 17,5 milhões de euros, tornando-se a KNJ na maior acionista do grupo.

Segundo o mediador das negociações, Paulo Rego, espera-se que o contrato seja assinado em Março. Esta “nova parceria” tem dois aspetos fulcrais: a “modernização tecnológica e os novos modelos de negócios digitais, [através da] migração do chamado jornalismo em papel para os novos modelos online”, e a “internacionalização do grupo para os mercados de língua portuguesa”. Macau, não só pela origem do investimento mas também devido ao seu desígnio como plataforma entre a China e os países lusófonos, “é uma extensão natural” dessa internacionalização, explicou. O grupo Global Media também confirmou o negócio e realçou a sua “internacionalização para países de língua portuguesa”.

O grupo Global Media é dono de duas gráficas, a Naveprinter, no Porto, e a Empresa Gráfica Funchalense, em Lisboa. O grupo é também acionista da agência Lusa, VisaPress e Notícias Portugal.

A KNJ não tinha até agora investimentos no setor dos media, sendo a Global Media parte da sua estratégia de “diversificação da carteira de ativos”. Os investimentos da KNJ, anteriormente focados no setor imobiliário, pretendem ser “internacionalizáveis e relevantes no mundo da língua portuguesa”.

Acredito que o atual investimento da KNJ no setor dos media em Portugal se deve às boas relações sino-portuguesas. A relação entre Portugal e a China sempre foi favorável, com os dois países a estabeleceram relações diplomáticas em 1979, resolvendo depois a questão pendente de Macau em 1987 e fazendo a 20 de dezembro de 1999 a transferência de soberania sem qualquer percalço. Em 2005, quando o primeiro-ministro chinês Wen Jiabao visitou Portugal, os líderes dos dois países anunciaram uma parceria estratégica global de cooperação entre Portugal e China.

O contacto entre os dois países mantém-se frequente nos dias de hoje. Após a sua visita ao Canadá e a Cuba no mês passado, Li Keqiang fez uma paragem de curta duração em Portugal no seu regresso à China, e o primeiro-ministro António Costa fez também uma visita oficial à China na passada semana, encontrando-se com o presidente Xi Jinping e com o presidente do Comité Permanente do Congresso Nacional do Povo, Zhang Dejiang. Nesta visita, António Costa teve também a oportunidade de dialogar com Li Keqiang, e durante uma conferência de imprensa os dois líderes afirmaram as boas relações entre os dois países.

Nos últimos anos, devido à situação económica adversa em Portugal, o investimento estrangeiro diminuiu e o país entrou em crise financeira. A China, porém, num espírito solidário de ajudar aqueles que necessitam de ajuda, incentivou as empresas chinesas a investirem em Portugal. Daí surgiu a aquisição de 21,35% da EDP por parte do grupo Three Gorges, a aquisição de ações da REN por parte da State Grid Corporation, a compra de 32% da Petrogal Brasil, subsidiária da Galp, por parte da Sinopec, e sobretudo a aquisição de 80% da Caixa Seguros por parte da Fosun. Ao todo, a China já investiu mais de 7 mil milhões de euros em Portugal, tornando-se este o quinto maior destino de investimento chinês na Europa. Para além disso, Portugal acolhe com agrado as aquisições de empresas nacionais centrais por parte de capital chinês, ao contrário de alguns países que se sentem “devorados” pela China.

A KNJ soube reconhecer as relações favoráveis entre Portugal e a China, assim como a influência de Portugal sobre os países de língua portuguesa e o forte apoio deste país ao estatuto de Macau como plataforma de interação sino-portuguesa. Por isso, a empresa fez uso desta plataforma para fazer avançar a sua estratégia de “diversificação da carteira de ativos”, tendo como alvo os mercados de países de língua portuguesa. Com o anunciar de vários projetos por parte de Li Keqiang para reforçar o papel de Macau como plataforma entre a China e os países de língua portuguesa, Macau irá com certeza atrair mais capital e todo o tipo de empresas com o mercado lusófono em mira, podendo revitalizar uma economia enfraquecida e criando uma situação mutuamente benéfica.

DAVID Chan 

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