Portugal tem grandes jogadores, mas não provou enquanto equipa - Plataforma Media

Portugal tem grandes jogadores, mas não provou enquanto equipa

A seleção portuguesa de futebol, recheada de estrelas, chegou a França assumindo-se como candidata ao título europeu. Contudo, logo na estreia o empate com a Islândia expôs fragilidades dos pupilos de Fernando Santos. Rui Cardoso, conhecido como o “Mourinho de Macau”, aponta o dedo à ferida: Portugal não mostrou rotinas, plano de jogo nem alma. “É de facto uma seleção servida por grandes jogadores. Mas não provou enquanto equipa, pelo menos neste primeiro jogo”, sintetiza o ex-treinador do Benfica de Macau agora a trabalhar em Portugal.

– Para além de Ronaldo, Portugal tem um “11” mojito forte e suplentes de luxo. Contudo, não chegou nem para a Islândia… Porquê?

R.C. – Portugal tem grandes jogadores, mas não provou enquanto equipa, pelo menos neste primeiro jogo. Há vários exemplos de seleções formadas por grandes jogadores que depois são incapazes de traduzir em campo o potencial coletivo que podem construir. Chamamos a isso o entrosamento, o entendimento entre os jogadores que permite exprimir o futebol de que necessitamos. A Bélgica, a julgar pelo talento dos seus jogadores, poderia ganhar o Europeu. Mas quando chega ao campo acontece-lhes o que aconteceu a Portugal.

– O quê?

R.C. – Portugal falhou nos aspetos práticos do jogo, nas rotinas. Quando a Alemanha entra a jogar, independentemente da qualidade dos seus jogadores, nota-se que há ali um desenho; sabem muito bem os espaços que têm de ocupar e como fazê-lo. Vemos isso também na Espanha. Não está só em causa o nível dos jogadores, mas também a competência do coletivo, com rotinas bem desenhadas e espaços bem preenchidos. Veja-se a Polónia: independentemente de enfrentar uma equipa mais fraca, demonstrou que, para além de bons jogadores, põe velocidade no jogo e mostra entrosamento. Evidentemente, depois, quem tem mais talento pode criar desequilíbrios.

– Fernando Santos não formatou essas rotinas?

R.C. – Cito um grande treinador, que é José Mourinho: mais que a condição física dos atletas, um selecionador tem de preparar as rotinas de acordo com os jogadores disponíveis. É essencial o trabalho laboratorial: cantos, livres, situações de jogo… Tendo jogadores tecnicistas, como os portugueses, é preciso dentro de campo uma estratégia que lhes sirva, independentemente de o adversário ser mais forte ou mais fraco.

– Não havia estratégia?

R.C. – Há um empurrar para a frente, com a improvisação que é própria dos mágicos; mas não se viu ali trabalho e estratégia capaz de vencer a muralha islandesa. Sabia-se que eles iam pôr o autocarro à frente da baliza, cobrindo os espaços e travando a criatividade portuguesa. Como são fisicamente muito fortes, usaram também isso a seu favor. Mas a verdade é que as primeiras oportunidades de golo até foram deles.

– Ronaldo acusa a Islândia de se ter limitado a chutar a bola para a frente…

R.C. – Não gosto dessas desculpas. É como dizerem que são mais altos e correm mais. Isso já se sabia. Não me venham agora dizer que isso é razão para que não haja uma estratégia para se conseguir vencer. Se aparecerem mais equipas destas, quero ver se conseguimos vencer.

– Portugal joga melhor contra adversários mais fortes, que lhe dão mais espaço?

R.C. – Portugal tem de ter argumentos para ultrapassar seleções como a da Islândia. É verdade que seleções mais fortes, que jogam o jogo pelo jogo, dão-nos mais espaço. Como temos muita criatividade, e somos fortes no um para um, nesses jogos temos mais possibilidades de marcar golos e vencer.

– Qual é a fórmula contra as equipas fechadas?

R.C. – Tem a ver com rotinas. Por isso, quando há jogadores com mais tempo de jogo juntos é maior a probabilidade de estarem mais entrosados. Depois, este ano temos no banco jogadores que em momentos cruciais podem entrar e dar mais ritmo ao jogo. Mas o que vi contra a Islândia é que, não tendo jogadas na cabeça, reagimos mais tarde do que devíamos. Falta o tal entrosamento.

– Viu-se essa sintonia na defesa italiana, que joga junta na Juventus. Por isso há quem defenda a titularidade de William e de Adrian, beneficiando João Mário, porque jogam juntos no Sporting. Faz sentido?

R.C. – Faz. Não por serem esses jogadores, ou por serem do Sporting; mas porque se conhecem melhor e se movimentam de forma automática; logo, mais rápida. A técnica individual está lá, mas as movimentações coletivas contam muito. Se metermos jogadores altos e corpulentos, e não jogamos o futebol direto, estamos a contradizer-nos. Nessa altura mais vale por a bola no chão e escalar jogadores com essas características.

– Qual é a ideia de jogo que melhor serve Portugal?

R.C. – Pareceu-me não estar devidamente trabalhada uma ideia de jogo. Pelo menos contra a Islândia e a forma como ela joga. Quando nos apanhámos a ganhar, a nossa posse de bola foi muito frágil. Logo nós, que somos fortes nisso, não conseguimos contornar a pressão adversária. A posse de bola que a Islândia nos deu foi consentida; esperavam por nós e, na altura certa, eram concisos e mais velozes que nós na recuperação da bola. Não tenho a estatística mas erramos muitos passes, o que geralmente não acontece. Achei a seleção um pouco apática. Percebo que quiséssemos evitar o confronto físico, mas notei alguma ingenuidade. Apostaria sempre na vitória de Portugal, por dois golos ou mais, mas não tivemos futebol para isso.

– Falhámos oportunidades de golo…

R.C. – Não falhámos; o guarda-redes defendeu e estava lá para isso. Nem nos livres havia um trabalho de casa feito. Nos últimos dois livres diretos, já no fim jogo, esperava ver ali pelo menos um lance estudado. São momentos cruciais que as seleções do norte, por exemplo, trabalham muito. Mas nós continuamos Ronaldodependentes. Bem sei que depois do jogo é mais fácil falar…

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– Se um jogador está em má forma escala-se outro. Mas se o problema é conjunto, o que pode ser mudado em dois ou três dias? O que passa na cabeça de Fernando Santos já para amanhã, frente à Áustria? 

R.C. –  Não posso pensar por ele, mas sim pela minha cabeça. O que se diz é que quando há uma ideia de jogo não se deve mudá-la só porque corre mal na estreia. Somos disciplinados e rigorosos quando trabalhamos fora, nos grandes clubes europeus, mas entre nós parece que preferimos a alegria da improvisação. Agora, se houver mais disciplina tática, Portugal tem todas as condições de ir longe, dado o valor dos seus jogadores. Aliás, para ganhar à Islândia bastava ter aumentado o ritmo de jogo. Podemos fazer muito melhor, mas os jogadores apáticos. Não se ouviu aquele grito que era necessário dentro equipa.

– Nem se ouviu muito o público…

R.C. – Não senti a Seleção com alma para esse apoio. Essa corrente com o público tem de partir do campo para a bancada. Os próprios jogadores têm de pedir esse calor, mas parecia que estavam num ritmo de futebol de praia. Se acelerarem e derem tudo – é o que vai acontecer nos próximos jogos – seremos apurados. O problema é que continuamos a ser aquele povo que, se não é espicaçado, não tem vontade de trabalhar. Gostamos mais de praia e só vamos à luta quando tudo parece perdido.

– Faria alterações no “11” titular, amanhã contra a Áustria? 

R.C. – Alguma coisa tem mudar, para ganharmos outra energia. Além disso, vamos jogar com uma seleção muito diferente; embora acredite que também jogue em contenção, à espera dos erros de Portugal.

– Tendo perdido contra a Hungria, não cabe agora à Áustria arriscar?

R.C. – Sim, mas se se atirarem para a frente será mais difícil para eles. O ponto é que nós temos de mudar alguma coisa, nem que seja na atitude. Temos de ser mais agressivos, determinados e disciplinados.

– Terá o discurso de vitória sido contraproducente? 

R.C. – Isso não afeta.

– Então para serve o discurso? 

R.C. – Não afeta porque quem criou este objetivo foram os próprios jogadores. Essas coisas não vêm de fora para dentro, resultam daquilo que os jogadores sentem. O treinador teve foi a coragem de fazer dessa ambição um discurso público. Se fosse de fora para dentro os jogadores teriam reagido negativamente, mas eles assumiram essa mesma ambição. Agora, quando se mete a fasquia mais alta os adversários, que já nos respeitavam, têm mais cuidado e mais vontade de vencer quem se assume como candidato.

– A jogar assim Portugal pode bater-se com a Itália ou a Bélgica, adversários no caminho se passarmos à fase de grupos? 

R.C. –  O problema não está só no jogo, está nas falhas infantis, como a do golo que sofremos. O Pepe tinha o defesa esquerdo – Raphael Guerreiro – à sua frente e movimentou-se para tomar conta de um dos avançados, quando devia ter mantido a posição. Houve ali má leitura da ocupação do espaço. Não estou aqui a assacar responsabilidades individuais, mas temos que assumir os erros. Contra a Bélgica ou a Itália, não os podemos cometer. 

– Cumprida a primeira ronda, qual é a seleção que o convence?

R.C. – Entre as seleções com condições para ganhar a prova, a França foi a que mais me desiludiu.

– De quem gostou mais?

R.C. –  Alemanha, Espanha e Itália estão ao nível que eu esperava.

– Itália não tem grandes nomes… 

R.C. – Com nomes ou sem eles, tem sempre a um estilo de futebol venenoso; e nunca sabemos de onde vem o veneno.

– Em qual aposta?

R.C. –  Vendo estes primeiros jogos, apostaria na Itália. Mas depois é preciso ver durante as eliminatórias com que jogadores se está a trabalhar e como é que atuam os que agora são suplentes. Aí sim, acredito que Portugal tem um plantel muito forte. Continuo a achar que a única grande falha de Fernando Santos foi não ter levado André Silva, na minha opinião o futuro melhor jogador português. É de um improviso tremendo dentro da grande-área, um ponta-de-lança que me enche as medias. Não compreendo porque não está no Europeu.

– Já não bastava o terrorismo, está também de volta o hooliganismo. Como é que os jogadores vivem este ambiente? Afeta-lhes a paz e a performance?

R.C. – O jogador sente logo na pele, porque tem família, amigos e fãs a assistirem aos jogos. A partir daqui temos logo o espetáculo estragado. Além disso, está em causa a indústria do futebol, que é do que vivem os profissionais que estão em campo. A rivalidade é boa. Mas, nas bancadas, a luta tem de ser no grito, no assobio, no abanar das bandeiras… Depois bebemos cervejas juntos e discutimos as peripécias do jogo. O futebol é um espetáculo; não pode ser outra coisa. 

Paulo Rego 

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