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“Bilinguismo e plataforma lusófona distinguem Macau das outras cidades chinesas”

Filipe Figueiredo, advogado e presidente da Associação de Pais da Escola Portuguesa (EPM), explica que o bilinguismo, bem como a plataforma lusófona, fazem parte da “matriz cultural Macau”, daquilo que nos “distingue das outras cidades chinesas”. Mas falta ao Governo passar da “narrativa” a um verdadeiro “impulso” estratégico

Paulo Rego

– Quando olhamos para a realidade social, económica, política… percebe-se o erro histórico de comunidade portuguesa não ser bilingue?

Filipe Regêncio Figueiredo – Não quero pôr as coisas nesses termos, mas é… não diria um erro, uma falha; que se nota porque, antes da transição, não se deu o enfoque necessário ao ensino da língua chinesa. O que podia ter permitido que hoje houvesse quadros mais qualificados e bilingues na Administração. A escola portuguesa, como o IPOR, devem ter papel fundamental no bilinguismo; na divulgação e ensino da língua portuguesa. Deviam estar na lista de interlocutores do Governo relativamente às políticas de bilinguismo, que constantemente aparecem nas Linhas de Ação Governativa. Infelizmente, fica-se por aí – às vezes custa-me.

– A língua portuguesa na Administração, tribunais… continua a cair. Pode-se inverter isso?

F.F. – Faço parte do estaleiro: sei qualquer coisinha de chinês, mas ler e escrever, obviamente, não sei. Mas custa em documentos oficiais, às vezes nos transportes públicos, ver erros de português porque se optou pela via mais fácil do Google Translate. Não há necessidade. Aqui, qualquer pessoa tem ao seu lado quem fala português e pode ver se as coisas estão bem. Começar nestes pequenos pontos já seria um bom avanço. E é para o bem de Macau. O ponto fundamental é que é isso que nos distingue de outras cidades chinesas: viver entre os mundos ocidental e oriental; haver uma grande parte da população que fala português, e outra que fala chinês.

– Já agora inglês…

F.F. – Infelizmente, o inglês veio de certa forma limitar a evolução e o conhecimento das outras línguas, porque faz a ponte. Se alguém fala chinês – e não português – provavelmente fala inglês. Se alguém fala português – e não chinês – provavelmente fala inglês. As pessoas entendem-se em inglês, em vez de tentarem um conhecimento cada vez maior das línguas portuguesa e chinesa. O inglês vem de fora, não faz parte da matriz cultural de Macau. Se queremos uma cidade internacional, de turismo, é fundamental que se fale inglês; mas o que faz parte da matriz cultural da cidade é a língua chinesa, a língua portuguesa, e a plataforma para os países lusófonos.

Se queremos uma cidade internacional, de turismo, é fundamental que se fale inglês; mas o que faz parte da matriz cultural da cidade é a língua chinesa, a língua portuguesa, e a plataforma para os países lusófonos”

– Essa matriz mantém-se na narrativa estratégica e nos discursos. Como se explica que não seja, na prática, uma prioridade política?

F.F. – É verdade; o português tem vindo a ser cada vez menos usado. Mas é normal que isto aconteça. Se isso é bom, já é outra conversa. Falo da área em que tenho mais conhecimento, que é a área jurídica; porque apesar dos juízes, delegados e procuradores do Ministério Público, em princípio serem bilingues, é normal que trabalhem na sua língua mãe, em chinês. Para eles é mais fácil, seguro e rápido. Quando as partes estão representadas por advogados portugueses, alguns juízes fazem o esforço de fazer despachos em português. Mas, atento o volume de trabalho, aceito que se sintam mais confortáveis em chinês.

– Como é que isso se ultrapassa?

F.F. – Era importante o Governo dar o exemplo. Se calhar, na Função Pública, a urgência não é tão premente como nos tribunais. Se houvesse mais pessoas na Administração, no próprio Governo, que comunicassem mais frequentemente em português, isso promoveria o ensino e o conhecimento da língua. Da mesma forma, como tantas vezes é proclamada a plataforma entre a China e os Países de Língua Portuguesa, se efetivamente deixássemos de ter isso como narrativa, e se começasse a executar, obviamente que o português era primeira língua em termos de contratos, arbitragens… porque seria comum entre as duas partes.

– Teremos massa crítica e empresas capazes de agarrar esse projeto? Ou tudo depende de uma economia rentista, patrocinada pelo Governo?

F.F. – Os mercados criam-se. Havendo vontade e dinâmica, aparecem as empresas, os empresários e os empreendedores. Estamos inseridos na Grande Baía; podem vir de cidades aqui à volta, podem vir até da Europa. Se houver resultados e Macau efetivamente fizer a ponte entre a China e os Países de Língua Portuguesa, países europeus ou do continente americano podem também ter interesse e, se calhar, vir a Macau tentar dar o salto. É preciso é começar a haver resultados e interesse para tudo. Efetivamente, as coisas não nascem do zero; e para tudo isto desenvolver seria necessário um primeiro empurrão do Governo. A partir daí as coisas seguem o seu caminho.

– A dinâmica crescente de inscrições na EPM indica que as famílias de língua materna chinesa percebem a oportunidade do bilinguismo e da plataforma lusófona?

F.F. – Numa visão otimista, quer no Jardim de Infância D. José da Costa Nunes, quer na EPM, o aumento de inscrições de alunos não falantes de português representa o interesse dessas famílias na aprendizagem da língua portuguesa. E é importante que não se sintam defraudadas nessa aposta. Por outro lado, olham para a EPM como uma escola internacional, diferente das escolas chinesas, com maior abertura. Não é um ensino que obrigue os alunos, desde pequenos, a lerem livros e a trabalhar. Primeiro cria estruturas mentais que os obriga a pensar, dá-lhes alguma flexibilidade e liberdade na atuação e crescimento enquanto alunos. A escola chinesa tem um formato diferente, obviamente com vantagens e com inconvenientes.

Se Macau pretende efetivamente ser essa plataforma, se essa é uma política de futuro, e que torna a cidade diferente, tem que apostar nessa dimensão linguística e criar programas que cativem falantes das duas línguas, venham de onde vierem”

– A relevância da comunidade de língua portuguesa estará no bilinguismo e na plataforma? Ou há outros problemas que é preciso resolver?

F.F. – A comunidade de língua portuguesa é muito diversa. Temos as pessoas nascidas em Portugal; os chineses do Continente, ou aqueles que nasceram em Macau e falam português; a comunidade macaense, especialmente relevante porque parte significativa fala as duas línguas. E também uma comunidade apreciável, pelo que eu vejo nas inscrições EPM, de oriundos de Países de Língua Portuguesa. Há aqui vários setores com os seus interesses diferentes. Uns, se calhar, tencionam cá estar por mais tempo, outros menos; e tudo isso condiciona os processos de aprendizagem e as intenções de cada um em aprender outras línguas, entender outras culturas, etc. O fomento das duas línguas é fundamental; será, se calhar, o cimento que une estas várias comunidades.

– Unidos pelo bilinguismo?

F.F. – Pelo menos na vertente de entendimento, porque é através da linguagem que as pessoas se entendem. E formaria um bloco face às comunidades chinesas e estrangeiras que não falam a língua portuguesa. Era necessário esse impulso, e que o Governo começasse efetivamente a atuar em prol do bilinguismo, que deixasse de ser apenas um título para o futuro. Voltando ao que disse atrás, se Portugal soubesse nos anos 60/70 o que o que é hoje Macau, se calhar teria apostado diferentemente no ensino do português e do chinês.

– Faz sentido uma política de vistos que, também ela, promova o bilinguismo?

F.F. – Se olharmos para a importância que a China dá à língua portuguesa, ao crescimento que têm tido os cursos superiores de língua portuguesa, e o papel que a China lhe atribui como meio de contato com os países lusófonos; vê-se que essa importância é sentida pelo Governo Central. Se Macau pretende efetivamente ser essa plataforma, se essa é uma política de futuro, e que torna a cidade diferente, tem que apostar nessa dimensão linguística e criar programas que cativem falantes das duas línguas, venham de onde vierem.

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