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Abertura da China precisa de espelho a ocidente

Paulo Rego*

A supressão da tradicional conferência de imprensa do primeiro-ministro chinês, durante as “Duas Sessões”, em Pequim – Assembleia Popular Nacional e Conferência Consultiva do Povo Chinês – é vista a ocidente como “negativa” para uma maior abertura. Mas Li Qiang não foi silenciado; antes defendeu na Assembleia os resultados do primeiro ano de mandato, anunciando os objetivos centrais do segundo: 5% de crescimento do PIB (em linha com 2023); 12 milhões de novos empregos urbanos; taxa de desemprego de 5,5 por cento; 3% de inflação; redução do consumo energético e foco ambiental; 7,2% de aumento em despesas militares e “desenvolvimento pacífico” das relações com Taiwan.

Em anos anteriores, a semiótica para Taiwan exigia “unificação pacífica”; o que faz muita diferença – e é claramente positivo. Faltou a Li Qiang, é certo, o recado mais ansiado pela economia global: abertura ao investimento estrangeiro. A omissão permite especulações; mas não traduz, em rigor, recuo protecionista. Por muito sofisticada que seja a semiótica da política chinesa, a realidade fala por si. Desde o fim da política do Covid-zero, Pequim multiplica contatos internacionais e acordos bilaterais; tendo emitido mais de duas dezenas de diretrizes para atrair capital estrangeiro e otimizar o ambiente de negócios para as multinacionais. Entre elas, destacam-se incentivos a projetos de inovação científica; igualdade de tratamento entre empresas nacionais e estrangeiras; acesso a concursos estatais; mecanismos para proteção de dados; e um vasto conjunto de incentivos fiscais e direitos de residência para a massa crítica estrangeira.

Realidade, essa, diferente da que se vive em Macau, onde os tiques protecionistas – e nacionalistas – se distanciam da lógica dominante em Hong Kong, na Grande Baía, e um pouco por todo o país. A posição da China no arquétipo das nações sofre forte bloqueio; não por vontade própria, mas porque, durante o Covid-zero, ergueram-se barreiras protecionistas e ideológicas a ocidente, face ao poder absoluto de Xi Jinping e à crescente influência política chinesa junto dos seus parceiros económicos.

A quebra dessas barreiras, central para o desenvolvimento económico – e a paz mundial – tem de ser vista de ambos os prismas. A China precisa de recuperar o comércio global; e, por mais duro que seja no controlo interno do poder – ou na aliança com Vladimir Putin – Xi Jinping reafirma incessantemente o compromisso com o desenvolvimento global, sustentável e pacífico. O mesmo não se pode dizer dos Estados Unidos. Se a guerra na Ucrânia expõe contradições chinesas, o que se passa na Palestina é dramático – e ridículo – para a ética norte-americana. Washington também precisa do mercado chinês, e de acordos políticos à escala global. Tem de haver cedências, mas dos dois lados. É crucial para ambos – e para o resto do mundo.

A linguagem gestual de proximidade entre Xi Jinping e Li Qiang, na abertura do Congresso, foi até excessiva para a semiótica tradicional. Deduz-se que percebem a importância da prova pública desse alinhamento. Sobre as omissões de Li Qiang, intuiu-se que não é altura de Xi Jinping entregar a narrativa da abertura ao primeiro-ministro. Esse discurso terá de vir do próprio Presidente – ou não virá de todo – deixando que a prática e a diplomacia o demonstrem. Num caso, ou no outro, a leitura política será diferente.

*Diretor-Geral do PLATAFORMA

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