Início » INVESTIR No caminho do meio

INVESTIR No caminho do meio

Paulo Rego*

A China multiplica esforços para captar investimento estrangeiro; do pacote de 24 medidas para atrair multinacionais, lançado em meados do ano passado, a périplos do ministro dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, um pouco por todo o mundo. Na semana passada, o próprio Presidente, Xi Jinping, recebeu representantes de empresas norte-americanas, em Pequim, para contrariar receios assombrados pelo abrandamento económico. Dias antes, no Fórum de Desenvolvimento da China, participarem líderes empresariais de alto nível, incluindo o diretor executivo da Apple, Tim Cook, que viu as vendas do iPhone na China caírem 33%, em fevereiro. O desafio é crucial, mas enfrenta contradições internas, e bloqueios externos.

O Investimento Direto Estrangeiro na China (IED) caiu para o menor nível em 30 anos, segundo dados oficiais divulgados no fim de março. A pressão sobre as empresas, a desaceleração económica, e sanções ocidentais, são alguns dos motivos para a queda do investimento. E há o elefante escondido na sala: o foco na segurança nacional e no combate à espionagem, explorado por governos ocidentais para desincentivar investimento na China; para além da mudança estratégica, na Europa e nos Estados Unidos, que depois do Covid preferem financiar investimento nacional, contra a deslocalização da produção intensiva, com mão de obra barata, que antes suportava o crescimento dos gigantes asiáticos.

O investimento estrangeiro direto (IED) na China totalizou 33 mil milhões de dólares em 2023, de acordo com a Administração Estatal de Câmbio; menos 80% que em 2022. Apesar de haver mais dinheiro a entrar do que a sair, o IED diminuiu pelo segundo ano consecutivo e é agora menos de 10% do pico de 344 mil milhões registrado em 2021.

Há engodos em ambos os lados. Por um lado, Pequim quer ter o melhor dos dois mundos, compaginando o investimento estrangeiro com um ambiente social e político cada vez mais apertado. Por outro, o ocidente, que precisa do mercado chinês, bem como de parcerias globais para o desenvolvimento sustentável – e a revolução tecnológica – aproveita a crise económica chinesa para pressionar o Xi Jinping a um tipo de abertura política que não está nos planos de Pequim.

Uns e outros encostam à parede potenciais aliados, correndo o risco de, em ambos os lados, haver reações duras e perigosas para o desenvolvimento e a paz mundial. É verdade que as alianças económicas também dependem de entendimentos políticos; e esse é o desafio com que ambos os lados têm de lidar. Não é possível exigir a países como a China que adotem regimes que satisfaçam a ideologia liberal ocidental. Mas também é difícil, e contraproducente, que Pequim deseje uma rampa económica sem derrubar alguns dos muros que o patriotismo e o nacionalismo erguem.

Há nesta equação dados positivos, que urge valorizar. Primeiro, a tese de que a economia interna chinesa aguentava o embate esvaiu-se nos ventos do Covid. Não é possível – e está a ser assumido ao mais alto nível. Por outro lado, a pressão ocidental, com ambição desproporcional, também confessa que o mercado chinês, e a parceria global, são indispensáveis a todos. Tem de haver um caminho do meio, que satisfaça ambos os lados, preservando a essência do que cada um representa. Os acordos são isso mesmo, servem ambos os lados; não são a derrota de uma tese em favor da outra.

*Diretor-Geral do PLATAFORMA

Tags:

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website