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Pequim reacende a luz lusófona

Paulo Rego*

A energia da comunicação relativa às “Duas Sessões”- Assembleia Nacional Popular (ANP) e Conferência Consultiva Política Povo Chinês (CCPPC) – projeta duas mensagens centrais vindas de Pequim: reforço da liderança interna e da segurança nacional; e ambição tecnológica, estratégica para o crescimento económico e a competição global. A frente externa cabe na narrativa, mas pouco brilha. E este ano há novidades para Macau: primeiro, uma espécie de intimação oficial para contribuir mais para o “desenvolvimento do país”, com foco na Grande Baía; depois, o Chefe do Executivo, Ho Iat Seng, assume especificamente as relações externas e o seu contributo para abertura e desenvolvimento da China. Bendita prioridade!

Decorreram em Macau duas sessões de esclarecimento importantes para a definição do atual mindset político – local e nacional. Primeiro, por parte do Chefe do Executivo, depois pela voz do representante em Macau do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Ao transmitir o espírito das reuniões do Governo Central com delegados de Hong Kong e Macau na CCPPC; e representantes da RAEM na ANP, Ho Iat Seng elencou os seis ensinamentos centrais que traz de Pequim: ser firme no princípio “um País, Dois Sistemas”, consolidando a salvaguarda da segurança nacional; diversificar a economia e apostar no desenvolvimento de alta qualidade; aproveitar as vantagens de Macau e apoiar o País na expansão da abertura de alta qualidade ao exterior; otimizar a vida da população e melhorar o seu bem-estar; reformar da Administração Pública e melhor a eficácia da governação; consolidar e fortalecer o amor à Pátria e a Macau, mantendo a harmonia e a estabilidade. A frente externa, o bilinguismo e a plataforma lusófona, desta vez, não escapam ao guião principal.

Diferente foi o resumo que o Comissário dos Negócios Estrangeiros preparou para vários convidados lusófonos, incluindo líderes consulares e delegados do Fórum Macau, representantes de associações com contactos económicos e comerciais, e jornalistas… Liu Xianfa chamou sobretudo a atenção para prioridades ligadas à segurança nacional; ao aprofundamento da liderança política de Xi Jinping; e ao desenvolvimento económico com base na investigação científica e inovação tecnológica. Embora, pela natureza do cargo, tenha especial sensibilidade para a frente externa, e estando perante uma audiência de língua portuguesa… nem uma linha sobre a ponte lusófona.

A questão que se coloca, assumindo-se de peito aberto a inevitável prioridade do investimento na Grande Baía, é a de saber qual é a oferta com que Macau se pode posicionar num mundo tão competitivo como o das cidades chinesas aqui à volta. Concorrer com Hong Kong na indústria financeira, atração de investimento, ou MICE? Desafiar Shenzen nas novas tecnologias e na economia digital? O que pode Macau verdadeiramente oferecer a mercados como o de Cantão? A essência da compatibilidade cultural, legal, linguística, e relacional com os Países de Língua Portuguesa continua a ser o fator decisivo da competitividade – e complementaridade – regional.

Tendo essa estratégia lusófona sido concebida no Centro político, nunca fez sentido a ser a margem regional a encolhê-la, como se ser patriota significasse virar costas à relação externa. Afinal, ela em nada contraria a Mãe Pátria – que nela insiste, porque isso a serve. Continua, aliás, a ser hoje uma visão tão clara e iluminada como sempre foi. Embora, na prática, nunca tenha verdadeiramente convencido as elites locais; nem pareça ter merecido em Pequim um selo obrigatório para um guião prioritário e impositivo.

No fundo, a plataforma lusófona tem sido vista como uma oportunidade entregue ao Segundo Sistema que, de forma mais ou menos consciente, a vem desperdiçando. Uma ideia que ainda pode ser brilhante, vem perdendo força de atração e energia de projeção. Ninguém se atreve a apagá-la, mas também ninguém a exibe como farol regional.

Desta feita, Ho Iat Seng regressa de Pequim com essa luz ao fundo do túnel; reacendendo a esperança na estratégia que foi sempre mais óbvia, com tão poucos a assumi-la. Depois de todas as outras prioridades do seu primeiro mandato – combate ao Covid, recuperação da reserva estratégica, e muito amor à Pátria – pode ser que Ho Iat Seng traga mesmo ordens para acender a tocha lusófona.

*Diretor-Geral do PLATAFORMA

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