Início Entrevista “Ninguém conhece o cinema de Macau”

“Ninguém conhece o cinema de Macau”

O filme local “Quero Ser uma Cadeira de Plástico” será exibido no Cinema Emperor de 1 a 3 de março. Esta produção, financiada pelo Programa de Apoio à Produção Cinematográfica de Longas Metragens do Instituto Cultural em 2018, estreou em dezembro de 2023 no Festival de Cinema Taipei Golden Horse. Em entrevista ao PLATAFORMA, o diretor, Mike Ao Ieong, disse que a inspiração para o filme parte dos problemas de habitação em Macau. Sugere que se a cidade quer desenvolver uma indústria cinematográfica, os seus filmes têm “primeiro que ser vistos”.

Carol Law

– O filme é adaptado a partir do conto “Onde Colocar Meu Corpo”, escrito por Gotoo. Por que escolheu essa história?

Mike Ao Ieong – Esta história na verdade é sobre a questão do alojamento. Conheci muitos amigos em Macau que estão nessa situação e sinto-me muito tocado com isso porque também sou uma pessoa que está sempre a mudar de casa, e não posso voltar a viver com os meus pais. Estas situações vivem-se em todos os lugares e em todas as cidades, mas muitas vezes estão escondidas e não podemos vê-las. O problema em que me centro é muito simples, é o problema da sobrevivência. Um dia, podes perder repentinamente as tuas bases de sobrevivência, coisas que te dão segurança, ou a tua felicidade, e vais sentir que não tens nada. A morte é a única maneira de terminar? O nome do filme sugere duas formas de pensar sobre esta pergunta: Eu quero ser uma cadeira de plástico? Isto é uma interrogação sobre se seremos um ser humano na próxima vida. Há muitas coisas que não podemos controlar, a única coisa que podemos fazer é mudar a nossa forma de encarar as coisas.

– Mas porquê uma cadeira de plástico?

M.A.I. – A história original era muito simples. Era contada na primeira pessoa, explicando por que é que a personagem principal queria ser uma cadeira de plástico. Havia apenas o personagem “Meng” e mais ninguém. Neste filme, foram adicionados outros dois personagens, nomeadamente os personagens de Anna Ieong e Jason Mok. Jason é alguém que usa relacionamentos para ter alojamento, enquanto Anna é alguém que tem uma nova vida e tenta ganhar dinheiro para melhorar as suas condições. Ambos constrastam com Meng.

 

– Pode descrever a maneira como adaptou o filme a partir deste conto?

M.A.I. – A história original era muito simples. Era contada na primeira pessoa, explicando por que é que a personagem principal queria ser uma cadeira de plástico. Havia apenas o personagem “Meng” e mais ninguém. Neste filme, foram adicionados outros dois personagens, nomeadamente os personagens de Anna Ieong e Jason Mok. Jason é alguém que usa relacionamentos para ter alojamento, enquanto Anna é alguém que tem uma nova vida e tenta ganhar dinheiro para melhorar as suas condições. Ambos constrastam com Meng.

– Quanto tempo precisaram para a produção do filme?

M.A.I. – Fizemos uma candidatura ao Programa de Apoio à Produção Cinematográfica de Longas Metragens de 2018 e o resultado foi anunciado no final de 2019, mas a pandemia começou no início de 2020, e naquela época, temíamos nunca conseguir produzir o filme. Em 2021, a pandemia estabilizou e então pensei que se não fizéssemos o filme naquela altura, não saberia quando o poderíamos fazer. Naquela época, o ator de Hong Kong, Wong Hin Yan, que interpreta o protagonista “Meng”, veio a Macau e ainda teve de ficar 14 dias em quarentena, mas pelo menos conseguimos reunir-nos e filmar. A produção durou 19 dias, seguido pela pós-produção (edição, edição de cor e banda sonora).

– Qual foi o feedback depois da estreia no Festival de Cinema Taipei Golden Horse?

M.A.I. – Acho que algumas pessoas estavam curiosas por ser um filme de Macau. Os bilhetes esgotaram em apenas um ou dois dias. Isso é algo com o qual não estava a contar, porque acho que o meu filme é um pouco convencional. Pessoalmente, acho que Taiwan tem um público mais amplo, algumas pessoas estão muito focadas em filmes de culto, como o nosso, e querem ficar a conversar connosco depois da projeção. Dificilmente alguém sai logo depois da exibição e muitos querem fazer muitas perguntas. Talvez nunca tenham visto um filme de Macau e estejam curiosos para saber como são as produções da cidade.

– O que você pensa sobre o Programa de Apoio à Produção Cinematográfica de Longas Metragens?

M.A.I. – No nosso caso, o financiamento para o projeto inteiro foi de 70 por cento do valor total, até um máximo de dois milhões de patacas. Nós fomos responsáveis pelos restantes 30 por cento, mas foi muito difícil encontrar uma empresa de cinema que investisse esse montante. No início, quando não tínhamos os recursos necessários, não sabíamos o que fazer, pois ninguém conhece o cinema de Macau. O Programa é como uma competição, onde os quatro primeiros vencedores recebem financiamento, e o Governo depois providencia o subsídio. Nós especializamos-nos em produção, e é difícil encontrar profissionais para lidar com trabalhos como publicidade, distribuição, etc. Não diria que precisamos de nos inspirar nas práticas de Hong Kong, porque há muito mais recursos, tanto para distribuição de filmes comerciais, como para produção de cinema independente.

Nós produzimos uma longa-metragem praticamente apenas centrados na criação e distribuição, e sem sabermos nada sobre contabilidade, publicidade, distribuição e como cooperar com festivais de cinema, porque isso não é nossa profissão. A bilheteira é um extra para nós. Para nós trata-se mais de ver onde o filme vai ser exibido, para que as produções de Macau possam ser conhecidas. Estarmos a produzir um filme com a participação de muitas pessoas locais, e que consegue os requisitos necessários para ser exibido nos cinemas ou em alguns festivais de cinema de renome, já é algo que ajuda o cinema de Macau a profissionalizar-se.

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