Catarina Domingues - CINCO DEDOS DE CONVERSA - Plataforma Media

Catarina Domingues – CINCO DEDOS DE CONVERSA

 

Tinha sotaque britânico. British, british, british like a sir.

Ou mun yat pou (Jornal Ou Mun), digo ao taxista, mas sem nunca acertar no tom da palavra em cantonês. Costumo dizer “pou” no momento em que estou a entrar no táxi, assim confunde-se o barulho da porta a bater com a sílaba. Às vezes dá resultado e não me voltam a perguntar para onde quero ir. Mas hoje fechei a porta antes de falar. Where to?, pergunta-me, e eu volto a fazer uma nova tentativa: yàtpou, e outra, yatpòu, póu, póu, poouuuu, enfim, parto para o mandarim “ao men ribao”.

Oh, sure, the newspaper!”, responde o condutor. E fá-lo num inglês limpo, e perfeito, e tão ao estilo de Jonathan Rhys Meyers como Henrique VIII nos The Tudors, que só consigo sentir inveja. You´re portuguese, right?, e eu aceno que sim, right, confirmo.

Ainda perto dos edifícios da Nova Taipa: é de Macau?, pergunto, sim, sou, responde o taxista sem olhar para trás. Mas por que fala tão bem inglês, onde aprendeu?, na escola, volta a responder. Por breves instantes passa os olhos pelo retrovisor. Nunca saiu de Macau?, arrisco, sim, estive em Timor-Leste com uma organização internacional de manutenção da paz.

Contornamos a Universidade de Macau, gosta de ver sitcoms?, continuo, sim, e vira-se, costumo ouvir rádio. Então eu faço uma última pergunta – óbvia, ou talvez desnecessária – fez os estudos universitários lá fora?, não, nem fui à universidade, mas fui um aluno sério enquando estudei no ensino básico e no secundário. O seu inglês poderia abrir-lhe portas, concluo, como assim, pergunta-me, acha que me poderia ajudar enquanto taxista?

Chegamos à ponte da Amizade, um impasse à entrada, com carros à espera. Cá dentro seguimos em silêncio, e Macau começa a aparecer à nossa esquerda, Macau mudou muito, volta o taxista à conversa, está um caos, não há qualidade de vida, no tempo dos portugueses estava-se melhor. Aqui os portugueses sempre fizeram alguma coisa, agora deixe-me dizer-lhe que em Timor, nada, nothing, they haven´t done anything there .

 

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