Luís Andrade de Sá - PASSEIOS À CHUVA - Plataforma Media

Luís Andrade de Sá – PASSEIOS À CHUVA

 

Manhã de domingo a ameaçar chuva no cemitério de São Miguel Arcanjo, em busca de um hipotético monumento aos mortos da I Grande Guerra, cuja existência tinha sido lida “em qualquer lado”. Debalde.

À porta, o invariável pedinte, lá dentro mais três ou quatro pessoas, uma delas num monólogo em voz alta com uma campa, e um gato a passear na erva entre os túmulos. No dia seguinte, alguém diz que o monumento existe e que fica “num poço, para os lados da capela”.

Os cemitérios são todos iguais, mas neste estão os “nossos” mortos: O Cheng Peng e o coronel Mesquita, o barão de Senna Fernandes e Ho Yin, Camilo Pessanha e a família Melo. Familares, amigos e adversários, mesmos se separados por épocas. Pessoas mais ou menos conhecidas, da contemporaneidade ou das referências, que ainda ontem as vimos, ou lemos, e que jazem sob pedra, agora ao sol que se tornou inclemente, mas todas apaziguadas pelo repouso e dominadas pela fisionomia do novo Lisboa.

Mortos portugueses, chineses, irlandeses, indianos, de Macau, Xangai, Manila, Margão, que sucumbiram à idade, ao tifo, à guerra, um menino de 12 anos que se afogou na ribeira (“Ai, lastimoso caso”), nada de novo na habitual narrativa que encontramos nas lápides de uma grande cidade de um império, como no vizinho cemitério protestante, no de Happy Valley, em Hong Kong, ou no da Missão, em Calcutá.

A novidade é a da crescente pressão urbana, que o transforma num último reduto, entrincheirado entre filas de autocarros de turismo a caminho das Ruínas e os cada vez mais próximos edifícios que descem do que já foi a cadeia em direção às mansões coloniais do Tap Seac. Para onde se olhe, há casas, varandas, roupa a secar, indícios de vida que coexiste com o espaço da morte, numa terra dominada pela superstição.Por isso, falhada a missão de encontrar o monumento aos mortos da Grande Guerra (que, afinal, parece que está no jardim de S. Francisco), restou, num intervalo da chuva, tentar encontrar alguma coerência nas opções de comida para os fantasmas esfomeados, depositadas na bermas das ruas vizinhas ao São Miguel Arcanjo.

 

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