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O silêncio que vem do Norte

Paulo Rego*

Longe vão os tempos da política do Covid-zero. Tão longe que ganhou o seu espaço a ilusão de que, se calhar, talvez nunca tenha existido; pelo menos da forma como a vimos. Certa é a convicção reinante de que não vale mais a pena falar nisso. É mesmo melhor esquecer o pesadelo que já lá vai. Ficam, contudo, as consequências. Que não são somente económicas.

Muitos em Macau se lembram – e não mais esquecerão – que o Palácio da Praia Grande se fechou sobre si mesmo. A sete chaves. Distribuiu benesses e subsídios, é um facto. Bateu todos os recordes mundiais de testes per capita; suspeita-se. Mas também deixou toda a gente entregue a uma crise sem precedentes, sem o conforto da proximidade ao poder. O que numa terra pequena, pouco habituada a esse isolamento, criou uma tempestade emocional; e uma crise política.

Do povo à elite económica e política; dos tradicionais aos liberais, dos mais novos aos mais idosos…. Muito poucos tiveram – e têm – contacto com o poder. E aqueles que se fecharam no círculo, cortaram com o comum dos mortais, não fossem ser acusados de terem o vício do mensageiro, quando a mania reinante era cortar o cordão à mensagem. Os poucos que ousavam perguntar, ouviam a mesma resposta: não há ordens no reino dos céus; logo, não há nada a fazer na Terra.

Em meia dúzia de meses, muita coisa mudou: Pequim enterrou o Covid; Macau renovou concessões de jogo com as mesmas seis operadoras, e atirou-lhes com peso e o custo da diversificação da oferta turística e da reabilitação urbana; o Governo continua a reduzir despesa e, ainda assim, a economia dá sinais de retoma. Ou seja: a China volta a permitir que o Continente venha jogar, enchendo os cofres da RAEM.

Mas há qualquer coisa no ar; algo mudou no reino dos céus. O Palácio do Povo está cada vez cada vez mais longe e difícil de entender. Mas não está como estava; isso é fácil de ver. Na voz de uma fonte tradicional, “não se passa nada em Pequim, o PC fez uma pausa. Limita-se a repetir as mesmas mensagens pós-Covid; não tem nada de novo a dizer”.

Não é bem assim. Aliás, não ter nada de novo a dizer não quer de todo dizer que nada de novo se passa. Antes pelo contrário: a queda, abrupta e inesperada, de dois faróis do regime, como os ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros, nada tem de normal, muito menos de irrelevante. E o silêncio que vem do Norte provoca mesmo muito alarido.

O que aconteceu em Macau quando o Palácio da Praia Grande fechou portas, janelas e pátios? Quem tinha mesmo de falar com alguém, e hábitos palacianos, virou-se para quem tinha acesso e os ouvia: os canais locais do Governo Central; e os mais altos quadros em Pequim aos quais puderam chegar. Interlocutores, esses, que estavam super ativos e interessados – em claro contraste com a postura do poder local. Defenderam a lógica do Covid-zero, com a mesma força e convicção com que depois explicaram o seu fim; projetavam constantemente a mensagem e a visão de Xi; desdobraram-se depois a garantir a abertura económica, a necessidade do investimento estrangeiro; o regresso à globalização, ao comércio internacional… E acabaram com a árdua tarefa de justificar a aliança sino-soviética, no contexto dramático da Guerra na Ucrânia.

Onde está hoje toda essa pro-atividade narrativa? Não está. E quando o Norte se cala, Macau perde o rumo, porque não tem o Delta do destino. Perguntar hoje na Praia Grande o que se passa; o que pensa; o que se pode fazer… é ouvir que não se sabe a resposta. Por ser esse o estilo e a prática; mas também porque, verdadeiramente, não há pistas nem instruções.
Parece voltar tudo ao mesmo; mas agora é tudo diferente. Porque o silêncio que vem do Norte tem agora a ver com o norte que se perde em Pequim.

*Diretor-Geral do PLATAFORMA

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