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Turismo com prioridades

Guilherme Rego*
Guilherme Rego

O Ano Novo Chinês era o primeiro grande teste para o turismo de Macau desde a abolição da política de casos zero. O excesso de otimismo de uns contra-balançava com o receio de outros, que olhavam para a evolução da Covid-19 no Continente e recusavam vereditos.

Dado o peso da mudança, não tardaram a ressurgir vestígios de uma vida que a população local começava a esquecer. De repente (porque assim o foi), milhares de turistas encheram as ruas de Macau, que por três anos mergulharam num silêncio ensurdecedor. O centro da cidade foi “ocupado” e o metro quadrado tinha de ser “conquistado” nos locais turísticos mais tradicionais.

As gentes de Macau sabem da importância desta azáfama; sentiram na pele o que a sua falta significa. E, portanto, nos últimos anos, esperou-se coletiva e ansiosamente para que dias como estes voltassem. Mas, como tantas outras coisas das quais se carrega saudade, facilmente se esquece que nem tudo é bom.

Durante o Ano Novo Chinês, dezenas de milhares de visitantes chegaram por dia; muitos pernoitaram, pressionando ainda mais os recursos da cidade e, sobretudo, a vida dos locais.

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Hoje esse é um problema menor. Ainda se vive na êxtase do “regresso à normalidade” e todos têm a consciência de que a incapacidade de apanhar um táxi ou jantar num determinado restaurante são elementos que nesta altura se prescinde. Porque o regresso das massas é um processo pelo qual a cidade tem de passar para que possa renascer e repensar o seu futuro.

Mas é verdade que este tipo de turismo já não era sustentável antes da pandemia – e era um tema de debate. Estamos a falar de uns míseros 33 quilómetros quadrados de terra que já trazem 680 mil residentes. Adicionar mais 30/40 milhões de turistas por ano desaba o chão.

Por isso o turismo qualificado – menos visitantes que pernoitam e gastam mais – tem sido a solução apresentada por académicos locais, apontando para Singapura como o exemplo ideal. Surge um problema: tal só seria benéfico para as concessionárias e outros negócios de alto nível, porque a grande maioria das PMEs locais não estão estruturadas nesse sentido, nem interessam a este visitante.

Os pequenos restaurantes e vendedores a retalho espalhados pela cidade seriam seriamente prejudicados; os taxistas também, e estamos a falar da subsistência de milhares de famílias. Partindo do princípio que a sua migração para as indústrias emergentes seria muito complicada, para não dizer impossível, o problema assume novas proporções.

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Portanto, enquanto se começa gradualmente a apostar na formação de talentos nos setores da diversificação, mudando a composição do tecido laboral de Macau, as autoridades devem pensar como aliviar os recursos da cidade para os locais.

Porque se no emprego a agenda política tem priorizado o residente, embora com excessos, então a agenda turística também deve estar alinhada, para que Macau seja dos locais, e não dos turistas.

*Diretor-Executivo do PLATAFORMA

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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