Pequim volta a estar “profundamente preocupada” com as últimas restrições comerciais decretadas pelos Estados Unidos, a 60 países, acusando ainda Washington de estar a “reprimir” empresas chinesas em particular, nomeadamente ao proibir a importação de robôs humanoides e quadrúpedes. A guerra comercial está longe do fim; e a recente visita de Donald Trump à China, que parecia ter aproximado posições, já vai lá longe.
É verdade que a Xinhua descreve a conferência online entre os responsáveis pelo comércio das duas grandes potências como “franca, profunda e construtiva”. Linguagem que traduz a postura diplomática de não-confronto, típica de Pequim. Contudo, o clima é cada vez mais tenso e evidente.
De resto, a Administração americana já assumiu que vai orçamentar milhares de milhões de dólares para financiar programas especificamente dedicados a contrariar a influência da China em todo o mundo, menos de um ano depois de ter suspendido vários desses investimentos.
O que nesta fase é evidente é que o Império em declínio assume estar sob ameaça da potência emergente – e vai reagir. Pelo menos por três vias: na guerra comercial, direta e dolosa; na demonstração do poder bélico, puro e duro, como na Venezuela ou no Médio Oriente; e reinvestimento em zonas de influência, que Trump havia abandonado, segundo a teoria de que o império não tinha de pagar para ser grande; mas antes cobrar por ser suficientemente grande para fazê-lo. Mas já não é.
O soft power chinês nunca se desviou da sua lógica simples e consistente: sabe que é suficientemente grande para investir em infraestruturas e mercados aliados, com isso crescendo e fazendo crescer a sua influência. Washington perdeu muito terreno, que agora quer recuperar. Mas o futuro não gosta de andar para trás…
Por mais que queira, Trump não é eterno; e foram tantos os erros e tropelias deste segundo mandato que se tornou um líder mais fraco e menos tolerado. Mas desengane-se quem pense que Trump está na origem do problema. Acelerou a História, porque é rude e descuidado; irritou o Planeta, porque é bélico e arrogante; mas também pôs a nu a questão que a todos assalta e nos vai tirar o sono durante muitos e longos anos.
Com Trump, ou sem ele; com Xi Jinping, ou quem o suceder, as duas grandes potências vão ter de tomar a decisão mais importante dos nossos dias: dividir o mundo em zonas “muradas” de influência”, numa guerra fria pós-moderna; partilhar mercados e tolerar divergências ideológicas, recuperando o sonho da globalização; ou correr mesmo o risco de um confronto sem precedentes, como nem a União Soviética e os Estados Unidos se atreveram.
Apesar da permanente ameaça nuclear e dos conflitos localizados em teatros de guerra patrocinados por blocos ideológicos divergentes.
Não é bonito; não é mesmo nada seguro; mas é de certa forma normal. Na História da economia política, e na natureza dos homens, cuja sede de poder e domínio territorial é bem mais animal do que a cultura faz parecer. A verdade é que Trump tem um misto de medo e de respeito por Xi Jinping, porque é da sua natureza reconhecer o tamanho de quem é grande.
Não sabemos, daqui a uns anos, com outros protagonistas, se será mais ou menos perigoso do que é agora. Mas podemos perceber, porque isso é fácil de ver, que o problema ainda vai ter um tamanho maior. Porque também aqui, o vício do futuro é não andar para trás…