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Diferenças entre Hong Kong e Macau na educação nacional

Jasper Lio*

Uma recente sondagem revela que o conceito de identidade local entre a nova geração de Hong Kong entra em conflito com a ideia de identidade nacional. Contudo, em Macau, a juventude continua a exibir uma “dupla identidade” saudável, com ambos os sentimentos de pertença a Macau e à China presentes. Por outras palavras, a educação nacional em Macau obtém mais resultados do que em Hong Kong. Mas qual é afinal a realidade de cada região?

Eric Chong, da Universidade de Educação de Hong Kong, publicou um estudo sobre o desenvolvimento e diferenças na educação nacional em Hong Kong e Macau em 2018. O académico salienta que a educação nacional e a formação cívica em ambas as regiões se complementam, sendo que as suas diferenças estão relacionadas com o desenvolvimento de cada uma das sociedades. A situação social complexa de Hong Kong, em comparação com Macau, levou a um desenvolvimento mais tortuoso do nacionalismo.

SER UM BOM CIDADÃO, POR SI E PELOS OUTROS

A reforma da educação civil em Hong Kong antes do regresso à China foi sempre conservadora. As diretrizes de Educação Civil , implementadas em 1985 pelo Governo britânico em Hong Kong, foram criticadas pelo seu cariz demasiado despolitizado e conservador.

A maioria destas normas diz respeito aos direitos e deveres de cada indivíduo, sem incluir o seu contexto social e político. A educação sobre democracia, direitos humanos e Estado de Direito são desencorajadas. Uma educação que vai ao encontro dos interesses de Pequim.

Académicos argumentam que foi a refor ma incompleta da formação cívica pelo Governo britânico no fim da era colonial que permitiu que Pequim conseguisse fazer a transição da região vizinha para o seu território de forma tão harmoniosa.

Embora não faltasse oposição à reunificação durante esta época em Hong Kong, a maioria da sociedade era composta ainda pelos chamados “animais económicos”, não entrando em conflito com a educação patriótica que Pequim queria promover.

Em contraste, a formação cívica em Macau antes da reunificação estava ainda mais atrasada, dificilmente se encontravam linhas claras para formação cívica como em Hong Kong.

O sistema escolar da época também era complexo, com escolas comunistas na base da pirâmide e escolas católicas no topo com orientações políticas e educacionais divergentes. Era altamente difícil para o Governo português em Macau unificar o currículo. Esta situação mudou drasticamente após a transição.

OUVIR O HINO NACIONAL ANTES DO TELEJORNAL

Fatores externos não influenciaram Hong Kong durante a fase inicial de reunificação. Foi apenas depois do presidente Hu Jintao visitar Hong Kong em 2007 e salientar que a cidade deveria reforçar a identidade nacional da sua juventude, que foram implementadas uma série de reformas de formação cívica e educação nacional pelo Departamento de Educação.

Primeiro, em 2008, com a implementação da revisão da estrutura da Formação Cívica e Moral para encorajar os professores a direcionar a sua educação de forma a alinhar a vida dos estudantes com a nação. Em segundo, e dois anos depois, o Chefe do Executivo, Donald Tsang, nas suas Linhas de Ação Governativa substitui a “educação moral e formação cívica” por “educação moral e nacional”.

As escolas foram ainda incentivadas a aumentar a carga curricular de educação nacional para desenvolver o sentimento de identidade. Foi assim que o currículo de formação cívica, que na verdade é educação nacional, foi formado. A reforma em Macau segue em certa medida os passos de Hong Kong. Depois da reunificação com a China, os livros de formação cívica passaram a ser publicados em conjunto pela DSEJ e pela Editora do Povo, com uma orientação semelhante à da formação cívica em Hong Kong, enfatizando o papel do indivíduo como “cidadão responsável” e sem o encorajar a discutir problemas sociais controversos.

DIFERENTES ESTRUTURAS SOCIAIS

A principal razão para a diferença no sucesso da educação nacional nas duas regiões administrativas especiais poderá estar relacionada com movimentos sociais.

Desde a reunificação que sempre esteve presente algum tipo de controvérsia social relacionada com a identidade em Hong Kong.

Em 2003, um milhão de residentes protestou contra o artigo 23º da Lei Básica. Em 2006 e 2007, protegeram a demolição dos dois cais, o Star Ferry e Queen. Em 2009, criaram um movimento contra a linha ferroviária expresso da cidade. Em 2012, fizeram novo movimento desta vez contra a educação nacional. Dois anos depois, registou-se o famoso protesto dos guarda-chuvas, sendo que em 2019 houve o movimento contra o projeto de lei de extradição.

Para um jovem a residir em Hong Kong, inserido numa sociedade de liberdade de informação, é difícil evitar estes fenómenos sociais e aceitar por completo tudo o que é ensinado na escola.

Como resultado, sabemos que as vontades separatistas nascem nestes contextos, aos quais o Governo Central responde com medidas severas (como a reforma da educação nacional). Qual a situação em Macau?

Se o segredo para o sucesso da educação nacional estiver na sua sociedade, podemos então entender que a educação em Macau é maioritariamente conservadora. A política em comunidade e clientelismo são prevalentes na RAEM.

Em suma, as esferas sociais e políticas são dominadas por sindicatos, associações comerciais, a União Geral das Associações dos Moradores de Macau, outras que apoiam o Executivo e mantêm uma atitude ativa na promoção da educação patriótica.

Um desses exemplos é a Federação das Associações de Operários de Macau, que organiza exposições anuais para celebrar a Semana Nacional. Membros da Assembleia Legislativa de associações naturais de outras províncias também já propuseram repetidamente que fosse adicionado “República Popular da China” aos seus bilhetes de residente, e que sejam introduzidos no currículo de educação nacional temas como História do Partido.

A Universidade de Macau também não fica atrás, tendo no ano de 2015 organizado um evento de celebração do 70º aniversário da vitória da China contra a agressão japonesa. Várias outras instituições sociais têm feito esforços para promover a educação patriótica.

Em todo o caso, a reforma de educação nacional de Hong Kong continua a ser marcada por um percurso mais volátil e turbulento do que a de Macau. Desta forma, é de esperar que a identidade nacional da sua juventude não seja uniforme, mas fluída, e por vezes conflituosa.

*Macaology

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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