Início » A violência saiu do armário

A violência saiu do armário

Nelson SilvaNelson Silva*

Portugal sempre teve alguma dificuldade em debater a violência de forma abrangente e de forma séria. E, claro está, tomar medidas concretas para prevenir comportamentos violentos, especialmente nas crianças. Por norma, a sociedade passa as responsabilidades de prevenção de comportamentos violentos nas crianças para os pais, algo que para além de advir da própria Constituição (dependendo da interpretação que se faça) também é defendido pela maioria dos pais. Mas será que a sociedade em conjunto não poderia tomar medidas diferentes?

Poderá ser defendido que a sociedade não se deve intrometer na educação das crianças. No entanto, a própria Organização Mundial de Saúde defende que a violência e a sua prevenção deve ser encarada como uma crise de saúde pública, devido ao impacto que tem nas sociedades. O próprio estudo aborda a questão das causas da violência, notando que a exposição a comportamentos violentos é um dos principais factores que levam ao aparecimento deste fenómeno nas crianças. É imperioso que a sociedade de facto atue.

E é por isso de fundamental relevância e importância que o Governo tenha, esta quinta-feira, alterado o decreto-lei que impede menores de 16 anos de assistir a eventos tauromáquicos. A Organização das Nações Unidas já o tem defendido através de uma resolução que classifica as touradas como factor de exposição à violência por parte de menores e que, por isso, deveria ser impedida a sua assistência nestes eventos. Também várias organizações não governamentais de proteção de menores têm alertado para esta questão; partidos políticos como o PAN também têm atuado fortemente para que isto se torne realidade. Finalmente o Governo mostrou coragem para dar este passo após acordo com o PAN que levou à viabilização do último Orçamento Geral do Estado (2021). Esta medida representa um avanço fundamental para que a sociedade comece a encarar a violência com seriedade. Finalmente o debate sobre a violência saiu do armário.

Isto porque, durante décadas, poucas foram as pessoas que encaravam a tauromaquia como comportamentos violentos. Mas vejamos, se impedimos a entrada de menores num combate de boxe ou de MMA, que sentido faz não impedir a entrada numa tourada onde a prática de violência é celebrada tal como o boxe ou MMA? Na realidade, não faz sentido nenhum. É por isso normal que este passo seja celebrado por quem tanto lutou para que a proteção das nossas crianças seja também aplicado nas touradas. Muito já se tem falado sobre a aplicação legal desta limitação, fruto de um fato recomendatório desse decreto-lei. Mas relembro que este decreto-lei é o mesmo que estipula os critérios de licenciamento do próprio espaço, é o mesmo decreto que proíbe menores de 18 anos de entrarem em discotecas, e se propriamente fiscalizado, o espaço que desrespeite esse decreto-lei corre o risco de perder a licença do espaço. Essa é a aplicação prática deste decreto e, por isso, tem uma importância que vai para além da evocação. Que este seja um passo importante e firme no reconhecimento geral da violência praticada na tauromaquia e que a sociedade cada vez mais avance na tomada de decisão de prevenir a violência e de a encarar como problema de saúde pública e que não volte a deixar que este fenómeno volte para o armário.

*Deputado do PAN

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website