O que está a dar é ir a casamentos "comedidos" - Plataforma Media

O que está a dar é ir a casamentos “comedidos”

António Costa disse que Portugal precisava de um “abanão”. E nada melhor para abanar os alicerces sociais, já à beira do colapso, do que anunciar mais uma série de medidas draconianas para alegada proteção do bem comum face à pandemia de Covid-19. O estado de calamidade. O pacote de medidas é, de facto, calamitoso.

Tenho duas preferidas porque contraditórias entre si: proibidos ajuntamentos com mais de cinco pessoas e limitados os casamentos e batizados a 50 pessoas. Bares e discotecas vão continuar encerrados, mesmo os que têm espaço mais do que suficiente para ter público com as devidas regras de higiene e distanciamento social.

Portanto, o que está a dar é ir a casamentos e batizados porque pelo menos nessas festas familiares são permitidas 50 pessoas, muito mais do que em qualquer outro convívio. Mas atenção, zz zz, como diria o Diácono Remédios do Herman, “os casamentos e batizados são possíveis mas têm de ser comedidos”, avisou o douto primeiro-ministro. Imaginei-o de batina a dar-nos este sermão.

Como toda a gente sabe no mundo lusófono e até fora dele, os casamentos dos portugueses são tudo menos comedidos. Há a mesa dos queijos, a mesa dos mariscos, a mesa dos frios, a mesa dos doces, dois ou três pratos principais, há o karaoke ou o “conjunto” a tocar, os pais dos noivos já alcoolizados a cantarem Quim Barreiros, os talheres a baterem no prato e os gritos de “beija, beija”, os convidados a fazerem comboios de dança na sala de refeições, o leilão da liga da noiva…enfim, só um realizador como o sérvio Kusturica saberia filmar com eloquência um casório tuga.

Temos de acordar para os nossos direitos, liberdades e garantias. Porque qualquer dia, o “abanão” do medo será tão forte que perdemos de vista o essencial: a democracia

Não sei como será a versão “comedida” desta tradicional baderna mas cheira-me a coisa chata. Também pode vir a ser coisa elevada se o uso das máscaras tiver bom gosto assim ao nível do “Eyes Wide Shut” do Kubric.

Ainda assim, como chato é melhor do que nada, os portugueses que agora pretendam sair para dançar e conviver só têm de arranjar convites para os casórios, batizados e afins ou então fazer como naquela comédia americana e tornarem-se “fura casamentos”.

E se quiserem levar até ao limite o surrealismo da coisa, instalem a aplicação StayAway Covid em plena festa e entretenham-se a caçar pokémons, que é como quem diz, a fazer match com infetados ou não infetados.

Haveria muito para dizer sobre o proto fascismo de ter uma app no telemóvel que identifica os potenciais contaminados e que se vai tornar obrigatória para membros das forças de segurança e militares, e em contexto laboral, escolar e académico.

Temos de acordar para os nossos direitos, liberdades e garantias. Porque qualquer dia, o “abanão” do medo será tão forte que perdemos de vista o essencial: a democracia.

*Jornalista do Plataforma

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