Os fanáticos do direito à vida são os verdadeiros “assassinos” - Plataforma Media

Os fanáticos do direito à vida são os verdadeiros “assassinos”

No Brasil, uma menina de 10 anos, violada pelo tio repetidas vezes, teve de mudar de estado para poder ver a sua gravidez interrompida e coberta pela lei. No estado do Espírito Santo, onde reside, nenhum hospital quis realizar o procedimento. A ela já lhe bastava a dor inimaginável de carregar um feto fruto de uma violação. Mas teve também de passar pela vergonha de ver a sua identidade revelada por Sara Winter, a ex-feminista do grupo Femen agora convertida em líder do braço armado da extrema-direita do Brasil.

Depois da revelação da sua identidade, um autêntico exército de fanáticos de Bíblia numa mão e espada na noutra, passe a metáfora, plantou-se à porta do hospital no Recife, para onde a menina foi, para impedir o procedimento pela força. A polícia teve de acorrer em bloco à unidade para proteger a criança, médicos e funcionários.

Aos gritos de “assassinos” os fanáticos do direito à vida pareciam estar dispostos a matar. Eles são sempre os verdadeiros “assassinos”. Se não no sentido literal, pelo menos na aceção moral da palavra: matam os direitos, liberdades e garantias, matam a dignidade da mulher, matam as vítimas por dentro. Como os antigos cruzados, em nome da religião, em nome de um deus que não respeitam e cujos princípios violam todos os dias, por uma Bíblia que não conhecem e da qual muitos não leram uma palavra nem sabem interpretar.

A única possibilidade de acreditar que eles “não passarão”, nas Américas como no resto do mundo, é ter gerações educadas

Pois esta gente anda a invadir as Américas como uma praga de gafanhotos. Dizimam tudo. Os mesmo evangélicos, puritanos e supremacistas brancos que apoiam Trump nos Estados Unidos são os que apoiam Bolsonaro no Brasil (mudam apenas os nomes dos grupos religiosos). São anti-aborto, anti-minorias, anti-liberdade.

Em 2017, o ano em que Donald J.Trump tomou posse como Pesidente dos Estados Unidos, a taxa de realização de interrupções voluntárias da gravidez (IVG) chegou ao seu nível mais baixo desde a legalização do aborto em 1973. Os estados conservadores fizeram o caminho antes. Entre 2011 e 2017, 32 estados norte-americanos aprovaram um total de mais de 394 restrições legais ao aborto.

Para alguns analistas, o verdadeiro objetivo por detrás dos ideólogos do direito à vida nos “States” é fazer com que um dos processos chegue ao Supremo Tribunal, onde reina uma maioria conservadora, para que seja possível reverter a decisão de 1973 no caso Roe vs Wade que legalizou a prática da IVG no país.

A única possibilidade de acreditar que eles “não passarão”, nas Américas como no resto do mundo, é ter gerações educadas. É defender o Estado laico e de Direito. É pugnar pela literacia de novos e velhos. É passar os valores da vida e da liberdade, estando disposto a defender coisas tão contraditórias como o direito ao aborto e o fim da pena de morte. Não é fácil. Mas neste Exército entram os que têm os livros (no plural e plurais, não apenas O Livro)  numa mão e a caneta, como espada, na outra.

*Jornalista

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