Basta abrir os olhos - Plataforma Media

Basta abrir os olhos

A Comissão Europeia volta a apontar o dedo à “vulnerabilidade” de Macau no controlo do tráfico de capitais e lavagem de dinheiro. O tema é sensível e o problema é global; nada tem de exclusivo local. O que não falta por esse mundo fora são paraísos fiscais e plataformas financeiras altamente sofisticadas, umas mais aceites e protegidas que outras… Essa hipocrisia é aliás um dos nós górdios da questão, porque há muito quem queira fechar umas portas para deixar as outras escancaradas. E a União Europeia, que tanto pressionou Portugal com a Madeira, esquece-se de Gibraltar, do Luxemburgo ou da Holanda; já para não falar de Londres…

A liderança chinesa quer saber onde anda o seu dinheiro e nas mãos de quem. A verdade é que se nota um crescente nervoso miudinho nos bastidores da indústria do jogo, porque a maior pressão nem sequer tem origem no ocidente. É agora Pequim que tem mão pesada no controlo dos dinheiros do Estado e, pese a autonomia da Região, põe os olhos na via aberta pelos casinos, como nunca antes terá posto. Por isso Macau e a China aderem aos pactos e convenções internacionais de troca de informações; por isso a banca local cruza dados com os Estados Unidos; por isso os padrões de controlo da OCDE serão cá adotados em 2018. O relatório da União Europeia refere este último ponto, mas menoriza o seu impacto. 

As razões pelas quais a China muda a sua abordagem são fáceis de entender: a campanha contra a corrupção, que se faz sentir em todo o país, não pode fazer de conta que Macau não existe; a chamada leekonomics, mudança de paradigma centrada no consumo interno e no apoio às pequenas e médias empresas, tem de reter capitais no interior do país; e Xi Jinping não pode permitir que o dinheiro circulante nos casinos vá parar às mãos erradas, tendo em conta as lutas internas de poder, mas também as alianças internacionais. 

Só quem não quer ver não percebe que essa é a principal razão pela qual o mercado VIP sofreu uma verdadeira hecatombe nos últimos dois anos. As coisas são o que são; mas já não são o que eram.  

 

Paulo Rego

 

 

Este artigo está disponível em: 繁體中文

Assine nossa Newsletter