Lusofonia é “uma das nossas maiores vantagens competitivas” - Plataforma Media

Lusofonia é “uma das nossas maiores vantagens competitivas”

Os lucros do BNU alcançaram 510 milhões de patacas em 2015, mais 15,1 por cento que no ano anterior (ver págs 22 e 23). Pedro Cardoso, CEO do banco, destaca o papel de Macau como líder da área internacional do Grupo Caixa (CGD), bem como as novas oportunidades em Guangdong e na plataforma lusófona. A banca, reconhece, tem de “inovar”, quer nos produtos quer nos serviços

– Que leitura faz destes resultados, face à dinâmica dos anos anteriores?

Pedro Cardoso – 2015 surge na senda dos anos imediatamente anteriores. Continuamos a progredir na estratégia de fidelização dos nossos clientes; passámos de 3,2 para 3,4 produtos por cliente; continuamos a crescer na base de clientes e no negócio global. O negócio cresceu de forma equilibrada, entre créditos e depósitos; o que demonstra a situação confortável do BNU, que mantém um rácio de transformação de cerca de 53 por cento, valor muito baixo face às práticas internacionais e locais. Crescemos também em proveitos estruturais e recorrentes, nomeadamente em termos de margem financeira – cresceu mais de 20 por cento – sendo que o banco, como outras entidades, foi algo penalizado pela evolução menos positiva do setor do turismo e do jogo. Ainda assim crescemos três por cento em termos de proveitos líquidos, muito à conta do trabalho na área dos seguros, onde crescemos quase 30 por cento; e na área de cartões, onde continuamos a crescer a uma taxa próxima dos dez por cento. Em conclusão, foi um ano positivo nas circunstâncias atuais de Macau. Continuamos a encarar o futuro de uma forma positiva e construtiva, mas com alguma prudência, em função dos riscos que pairam não só sobre Macau e a China, mas também sobre a economia global.

– Tendo o BNU uma forte liquidez, seria expectável um maior volume de crédito. O que é que condiciona os empréstimos? A retração das pessoas e das empresas; ou o receio do banco face ao aumento do risco?

P.C. – Não temos notado aumento do risco, nem nos setores tradicionalmente mais sensíveis, como o crédito pessoal ou os cartões de crédito. Aliás, uma das relações mais positivas em 2015 foi precisamente a descida do rácio do crédito vencido a mais 90 dias, que baixou de 0,4 para 0,17 por cento. O que notamos, sobretudo já em 2016, é uma menor procura de crédito. No caso dos particulares isso não é surpresa, face ao número decrescente das transações no mercado da habitação e no imobiliário em geral, ao longo dos últimos meses. Mas também nas empresas temos notado grande retração da procura de crédito.

Para o BNU, a situação de liquidez ampla é uma bênção, num cenário de alguma instabilidade potencial; mas é também uma maldição, no sentido em que temos valores muito significativos com remuneração muito baixa. Seria melhor um cenário de taxas de juro nominais mais elevadas, sendo que isso é basicamente determinado, por via indireta, pelas autoridades monetárias dos Estados Unidos. Uma subida das taxas em um ponto que seja nos Estados Unidos significa um impacto positivo na nossa margem financeira de cerca de 15 por cento.

– Qual é a tendência de evolução das taxas de juro?

P.C. – Este ano não se perspetivam grandes subidas; eventualmente mais 0.25, ou meio ponto percentual. De uma forma indireta, tem também influência em Macau a situação da liquidez em Hong Kong. Aliás, a primeira subida das taxas por parte da Reserva Federal [Estados Unidos] não teve impacto imediato em Macau, tanto na taxa interbancária como na prime rate, mas assim que houve pressão sobre a taxa de câmbio do dólar de Hong Kong, imediatamente as taxas de juro subiram. Essa pressão desvaneceu-se passadas algumas semanas e as taxas de juro em Macau, ainda que não na mesma proporção, acompanharam essa descida parcial.

– Primeiro o Banco da China, depois o ICBC, têm quotas de mercado muito superiores às de qualquer outro banco. Nas atuais circunstâncias considera possível a banca portuguesa – BNU em particular – aspirar a posições de maior relevo?

P.C. – Acompanhamos a situação das quotas de mercado de forma detalhada e cuidadosa. É preciso ter um cuidado extremo, porque nos bancos que refere uma parte muito assinalável do negócio que apresentam pouco ou nada tem a ver com a atividade em Macau; por razões diversas que me abstenho de comentar.

São meros veículos da exportação de capital?

P.C. – É capital ligado à China, em muitos casos sem qualquer relação com Macau. Para nós, neste mercado, os conceitos mais importantes têm a ver com os indicadores de transacionalidade, como a atividade nas ATMs, ou os cartões de crédito e de débito. Aí continuamos com quotas muito apreciáveis. Mais importante ainda é verificar que, em 2015, em vários desses indicadores tivemos um ganho claro de quotas de mercado, que não é alheio ao aprofundamento da nossa estratégia, alicerçada em dois grandes pilares: abordagem ao mercado com produtos e serviços inovadores; reforço da prestação de serviços de qualidade com maior valor acrescentado. No primeiro pilar, lançámos o cartão Asian Miles, o primeiro com valores bastante significativos de pontos e milhas para usufruto em 26 linhas aéreas, bem como em centenas de hotéis e restaurantes em todo o mundo; o cartão de crédito China Union Pay, com três moedas; o serviço inovador de reserva de moeda estrangeira através da internet; um cartão de atendimento prioritário no serviço de caixa para os clientes de gama mais elevada, nomeadamente private banking e advantadge… Foi um ano bastante intenso em termos de novos produtos e serviços que, obviamente, tiveram repercussão favorável em vários indicadores da nossa atividade. Por outro lado, reforçámos o controlo de qualidade dos serviços a clientes e, com o apoio da Casa Mãe, lançamos um programa de melhoria de eficiência operativa e redução de erros.

– Perante a retração económica e o desinvestimento imobiliário, o caminho da Banca é o da diversificação de produtos?

P.C. – A progressão ao nível de sofisticação e da qualidade de serviços não está diretamente associada à retração económica. Aliás, a experiência diz-nos que é nos momentos de maior expansão que se verifica uma maior apetência por parte das instituições financeiras para acelerarem processos de inovação e lançarem novos produtos e serviços. Nos cenários de correção económica verifica-se um maior controlo dos custos e menor investimento, nomeadamente em áreas como o marketing. Mas estou absolutamente convencido que o caminho de Macau é o da diversificação da sua base económica e, dentro do setor financeiro, há um longo caminho a percorrer na oferta de produtos e serviços que trarão ganhos adicionais para a redução relativa do peso do setor do jogo. Não espero que esses ganhos sejam espampanantes para o setor financeiro mas, tal como em outros setores, poderão ter algum significado e ajudar a diversificar a base económica em Macau.

– Nesse caminho da diversificação, que importância dá à integração regional e à cooperação com os países de língua portuguesa?

P.C. – Muita importância. Aguardamos a qualquer momento a aprovação por parte das autoridades chinesas para o estabelecimento da nossa agência em Hengqin [Ilha da Montanha], basicamente dois fitos: por um lado, o cross border Macau/China continental, tendo nós centenas, senão milhares de clientes, com investimentos e atividade económica significativa que poderemos apoiar de forma mais direta, correspondendo aos seus desejos e anseios; por outro, apoiar empresas de países de língua portuguesa na China Continental. Diria, de uma forma mais realista, na província de Guangdong, que já de si é um espaço geográfico, económico e populacional muito expressivo.

– A plataforma financeira para a Lusofonia está a crescer?

P.C. – Também aí, 2015 foi um ano muito importante para o BNU, pois obtivemos um crescimento do volume de negócios associados a esse espaço geográfico muito superior ao nosso crescimento médio. O volume de negócio global cresceu 22 por cento; com os países de língua portuguesa crescemos 153 por cento; com Portugal em particular crescemos 394 por cento. Isso mostra o empenho do BNU em utilizar uma das nossas principais vantagens competitivas, que é o facto de pertencer a um grupo inserido em 23 países; sete dos quais de língua portuguesa e, em cinco deles, com uma posição de liderança. Essa é uma das principais valências do BNU e do Grupo CGD e não deixaremos de a potenciar plenamente.

Esse crescimento deve-se a clientes do BNU com investimentos na geografia lusófona?

P.C. – Sim; mas também, no sentido oposto, apoiando clientes dessas geografias em operações de comércio externo com Macau e a China.

Estou absolutamente convencido que o caminho de Macau é o da diversificação da sua base económica e, dentro do setor financeiro, há um longo caminho a percorrer na oferta de produtos e serviços que trarão ganhos adicionais para a redução relativa do peso do setor do jogo.

 

Dr. Pedro Cardoso CEO 13

Guangdong é um espaço muito assinalável de oportunidades”

 Uma eventual aposta no Delta do Rio das Pérolas não seria uma geografia de oportunidade mais ambiciosa que Guangdong?

P.C. – É uma característica muito particular do banco, e também minha, procurarmos irmos passo a passo. Guangdong é um espaço muito assinalável de oportunidades. A nossa preocupação, para já, é trabalhar áreas geográficas mais adjacentes a Macau. Já identificámos centenas de clientes relevantes e logo que tenhamos autorização iniciaremos a abordagem comercial. Temos o diretor geral escolhido e uma equipa já em construção.

– Essa equipa será grande?

P.C. – A agência irá arrancar com 11 pessoas e uma estratégia muito focada nos dois pilares que referi e que, já de si, nos vão dar um mar de oportunidades.

– Qual é a importância de ser banco emissor?

P.C. – O BNU tem um contrato com o Governo da RAEM, até 2020, como banco emissor e Caixa do Tesouro; uma grande honra e satisfação. Tudo fizemos, tudo fazemos e tudo faremos para continuar a desempenhar esse papel da forma mais satisfatória possível. Implica uma responsabilidade muito acrescida e investimentos muito razoáveis, não só em recursos humanos mas sobretudo na gestão logística. Temos uma estrutura de banca comercial, que representa 80 a 90 por cento dos nossos recursos; depois temos outra, que não é pequena, afeta à atividade de banco emissor, que no meu entender temos cumprido com grande satisfação e muito mérito.

– A banca comercial beneficia da posição de banco emissor?

P.C. – Haverá alguns ganhos de imagem, mas são perfeitamente intangíveis e não os podemos mensurar de forma simples. Aliás, nem nos preocupamos com isso. O que nos conduz é cumprir esse papel da melhor forma possível.

– O sistema financeiro em Macau é de certa forma subsidiário do de Hong Kong. Será isso uma vantagem, nomeadamente para a credibilidade; ou um limite ao desenvolvimento da banca local?

P.C. – A relação entre Hong Kong e Macau é muito próxima. A moeda de Hong Kong circula aqui facilmente e existe uma série de relações – ou dependências – incluindo a própria PEG [anexação] da pataca ao dólar de Hong Kong. Mas eu diria que Macau tem uma grandíssima autonomia. Tem o seu regulador e supervisor que, do meu prisma pessoal, tem ajudado muitíssimo o setor financeiro de Macau a progredir, não só do ponto de vista das oportunidades de negócio – aqui, em Hong Kong e na China continental – mas sobretudo da própria solvência, liquidez, supervisão e compliance do setor financeiro. Macau tem autonomia praticamente total e vida própria. Do meu ponto de vista, face a outras experiências que conheço, claramente não deslustra a Região.

– Estão em curso alterações na governance do Grupo CGD. Isso terá aqui consequências ou BNU funciona em Macau de forma independente?

P.C. – O BNU é parte integrante do Grupo Caixa e qualquer alteração na governance do Grupo CGD terá sempre impacto no BNU. Sendo uma instituição de direito local, estabelecida em Macau desde 1902, temos obviamente uma autonomia estratégica muito apreciável, mas perfeitamente integrada no Grupo. Sobre essas alterações não posso nem devo pronunciar-me.

– Quanto à estratégia para a plataforma lusófona…

P.C. – Atrevo-me a dizer que para qualquer governance o aproveitamento das sinergias entre as diferentes unidades do grupo será sempre um pilar básico, porque essa é precisamente uma das nossas grandes vantagens competitivas. A China tem com os países em que a Caixa Geral de Depósito está presente parcerias estratégicas significativas e essa é uma vantagem que devemos aproveitar plenamente. O BNU, bem como toda a área internacional, aportaram um contributo razoável em termos de resultados para o Grupo. A área internacional rondou os 150 milhões de euros, tendo o BNU representado mais de 40 por cento desse valor.

É nesse contexto que se explica a parceria assinada em Macau com o Banco da China?

P.C. – Sim. Diria que se juntaram aqui duas equipas quase imbatíveis, no contexto da plataforma financeira entre a China e o espaço de expressão portuguesa. O Grupo CGD tem aí um posicinamento ímpar; o Banco da China, além do posicionamento fantástico na China continental e das regiões administrativas especiais, é também o banco chinês mais internacionalizado. Portanto, juntaram-se duas capacidades que, em conjunto, muito poderão ajudar Macau a distinguir-se pelo trabalho nessa plataforma de cooperação.  

 

Paulo Rego

 

 

 

 

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