Fernando Manuel * - MENTIR POR UMA ROSA - Plataforma Media

Fernando Manuel * – MENTIR POR UMA ROSA

 

O tempo que passou entre abril de 1974 e junho de 1975 deixou-me na memória uma marca indefinida e difusa sem pormenores que eu possa descrever. Fui apanhado na esquina como se costuma dizer em bom português. Em finais de 1973, abandonei o liceu, fui incorporado na tropa portuguesa em março de 1974 (foi a última incorporação da tropa portuguesa em Moçambique) e quando ainda estava a cumprir a recruta em Boane deu-se o 25 de Abril.

Andei mais ou menos à deriva no meio daquela fuga em massa dos portugueses de regresso para metrópoles, tudo incluído desde polícias a militares, funcionários públicos, comerciantes e empresários, prostitutas e homossexuais e lésbicas e eu, com os meus 20 anos e categoria de furriel, tal como outros da minha geração, assumia com um prazer de paródia as patrulhas pelos subúrbios, onde vi meia dúzia de colonos brancos a serem despojados dos seus bens, fossem cantinas ou estaleiros de construção civil, criações de porcos ou aves, alguns a serem queimados e as suas mulheres e filhas a serem violadas num histerismo coletivo incontrolável sob o meu olhar. O meu e o dos seis soldados que faziam a patrulha comigo. Sentia-me como se aquilo tudo não me pudesse dizer respeito, dada a minha incapacidade de compreender o que se estava a passar. Eu tinha uma namorada, a Rosa, com quem aos fins-de-semana alugava um táxi, na praça do Alto Maé, junto a Somorel, para irmos comer galinha cafreal no restaurante Piri-Piri, no fundo da avenida 24 de Julho, a beber cerveja.

Eu tinha um bom salário considerando a minha idade, o facto de ser furriel, ser solteiro e ter de me responsabilizar por despesas que não dissessem respeito às minhas necessidades pessoais. Por isso, muitas vezes alugava, não só um, mas três ou quatro táxis para viajar em coluna com os meus amigos, cada um com sua namorada em direcção ao Piri-Piri. E, enquanto comíamos e bebíamos, os taxistas marcavam e esperavam por nós. Depois levavam-nos de regresso ao subúrbio aos bailes do clube Mahafil, na rua dos irmãos Roby onde, cada um de nós e sua namorada, no escuro das bancadas do campo de futebol, acontecia coisas que nenhum de nós contava, nem como segredo nos piores momentos de bebedeiras.

Depois tudo acabou. Depois de trinta anos de silêncio, ausência e esquecimento absoluto, voltei a cruzar-me com a Rosa. Ela é que me reconheceu. Fomos juntos a uma cervejaria, contou-me da sua fuga da Operação Produção, sua passagem como professora em Massangena, onde, segundo ela própria, conheceu todas as camas de campanha de todos os comandantes e diretores distritais a troco da sua liberdade e independência de espírito e o seu recente regresso a Maputo, na boleia da campanha eleitoral.

“Vivo em casa da minha irmã mais velha, gostaria que me fizesses companhia para passar esta noite. Tenho sido muito maltratada pela vida. Vamos passar pelo mercado para comprar verdura. Tenho duas galinhas no congelador em casa. Hei-de gostar de conversar contigo”. Separei-me dela na segunda-feira de manhã. Cheguei à casa cansado com um saco plástico de camisetas e bonés. Disse com o ar de quem tinha consciência tranquila por ter o dever cumprido: “estava a fazer campanha porta-a-porta, no bairro Guava e no rio Mulauzi”. Sentia-me feliz pelo reencontro com a Rosa e por ter mentido à minha mulher por uma boa causa.

 

* Exclusivo Savana/Plataforma Macau

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