Paulo Rego - A CULTURA DO DÉFICE SEM CULTURA POLÍTICA - Plataforma Media

Paulo Rego – A CULTURA DO DÉFICE SEM CULTURA POLÍTICA

 

Através da sua influência no Fundo Monetário Internacional – e no seio da própria Comissão Europeia – os Estados Unidos foram cúmplices da obsessão de Bruxelas pelo controlo do défice orçamental, tendo a chanceler alemã, Angela Merkel, assumido o papel principal desse guião. Curiosamente, Washington optou pelo caminho inverso: primeiro ligou a máquina de fazer dólares, assumiu os custos da inflação e o peso do défice, numa estratégia de contraciclo que aliviou a carga dramática da crise de 2008, dando às empresas e aos contribuintes tempo para absorverem o impacto da implosão da bolha imobiliária e dos mercados financeiros. Percebem-se os diferentes contextos históricos: os germânicos valorizam a cultura do trabalho e a estabilidade monetária, apavorados com a hecatombe da República de Weimar; já os norte-americanos preferem manter a economia a rolar, tendo aprendido em 1929 que a obsessão das contas públicas, em cima de uma crise financeira, redundou em políticas protecionistas e nacionalismos exacerbados que desembocaram na Segunda Grande Guerra.

Surge agora em Paris um discurso violento contra a ética protestante que vem do norte. Contrariamente a Portugal, que apresenta um orçamento (2,7 % de défice) ainda mais draconiano do que exige Bruxelas (3%), a França assume um défice de 4,7%, impondo a sua autonomia orçamental e recusando uma moral cuja fatura se paga com aumento de impostos, retração económica e desestruturação do Estado social. Pela sua dimensão, os gauleses recuperam um debate que muitos sulistas gostariam de ter abraçado há mais tempo.

Para além do nível de vida das pessoas, os primeiros sinais de reconstrução da narrativa europeia são cruciais para os equilíbrios que fazem falta ao capitalismo global. Não é possível vislumbrar uma verdadeira recuperação enquanto o maior mercado de consumo do mundo continuar na vertigem da curva “J”, que mais parece um “I” sem fundo do que uma estratégia de recuperação a partir de uma base de recuo. A China, o Brasil, e os restantes países em desenvolvimento, também pagam a retração europeia, com a queda das suas exportações. É perigoso desvalorizar o rigor das contas públicas, bem como o pagamento dos empréstimos internacionais, mas também é irracional esticar a corda da depressão do consumo, do empreendedorismo e da inovação, quebrando a própria lógica da globalização económica. Só há economia quando os produtos se movem e os serviços têm mercado; e enquanto não for inventado outro sistema, a melhoria das condições de vida das populações depende do desenvolvimento económico.

Mesmo que inverta a estratégia atual – não é líquido, nem tem prazos seguros – a Europa levará muito tempo a recuperar o papel que desempenhou no pós-guerra, alicerçado em empréstimos massivos que permitiram a sua reconstrução (Plano Marshall). O que significa que a esperança de curto e médio prazo se concentra agora na Ásia, nomeadamente nos mercados de consumo chinês e indiano. Circunstância, essa, que traz à tona um novo debate, que aliás se sente nas ruas de Hong Kong ou na adesão de Taiwan às teses do direito universal à democracia e aos direitos humanos.

A questão está em perceber se a dependência global da evolução dos mercados emergentes implicará também compromissos ideológicos; ou se, pelo contrário, resultará em relações internacionais exclusivamente centradas no crescimento económico, sem quaisquer outros contornos civilizacionais.

Sejam quais forem os argumentos em jogo, o mundo que aí vem será também moldado pelas potências asiáticas – o que tem todas as vantagens, tirando todas as outras. Mais cedo ou mais tarde, Bruxelas terá de perceber que o ritmo da sua recuperação económica – e consequente influência política – ditará também se o debate ideológico e civilizacional que se segue será dirimido apenas entre a Ásia e os Estados Unidos, ou se o “Velho Continente” ainda terá algo a dizer sobre o novo mundo.

 

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