AICEP AJUDA MACAU A CRIAR CENTROS PARA A COOPERAÇÃO CHINA-LUSOFONIA - Plataforma Media

AICEP AJUDA MACAU A CRIAR CENTROS PARA A COOPERAÇÃO CHINA-LUSOFONIA

 

A Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) está a colaborar com o Governo de Macau para a criação no território de três centros para a cooperação económica e comercial entre a China e os países lusófonos, disse em entrevista ao Plataforma Macau o presidente, Miguel Frasquilho. Em contactos com as autoridades locais esta semana, o responsável transmitiu o interesse de Portugal ser um “ponto importante” da relação da China com os países de língua portuguesa.

 

PLATAFORMA MACAU – Neste contexto de crise que Portugal tem atravessado, em que se tem focado o trabalho da AICEP e que mercados têm trabalhado prioritariamente?

MIGUEL FRASQUILHO – Pensamos que o momento mais fundo da crise já terá sido ultrapassado. Não é por acaso que a troika já saiu do país, estamos numa fase de recuperação, a recessão já lá vai, o desemprego está a diminuir, temos feito uma série de reformas que se impunham para tornar o país mais competitivo e atrativo e, portanto, é nesta criação de um ambiente business friendly para os investidores que a atividade da AICEP se insere. Obviamente não podemos negar que os nossos mercados tradicionais continuam a ser a União Europeia, para onde se dirige a maior percentagem de exportações, cerca de 70%, mas há 15 anos eram 80%, portanto significa que há 10% das nossas exportações que vão para outras regiões do globo de maior crescimento. Destaco, por exemplo, a Ásia, a China, com um crescimento das exportações portuguesas muito rápido, aqui também para Macau, a costa oeste da América Latina, portanto, o eixo México, Colômbia, Peru e Chile, para onde as exportações também têm crescido bastante e depois os países da CPLP [Comunidade dos Países de Língua Portuguesa], e destaco aqui nomeadamente Angola, que já é o quarto principal parceiro comercial de Portugal, e os países do Golfo Pérsico e do norte de África, os países do Magreb. Portanto, temos diversificado as nossas exportações e a AICEP aqui tem dado um contributo grande pelo facto de ter uma rede externa que está presente nos locais e é conhecedora da realidade local e, portanto, tem sido um amparo importante para os empresários, para os investidores e não sou eu que o digo, são os próprios empresários que o dizem.

 

P.M. – Que importância têm hoje as relações com a China e como vê a entrada de capital chinês em empresas portuguesas?

M.F. – As relações com a China têm conhecido um desenvolvimento muito rápido, quer em termos de trocas comerciais quer em termos de investimento. O crescimento das relações comerciais tem-se situado na casa dos dois dígitos ao ano, portanto, é um belíssimo crescimento e é conhecido o interesse de várias empresas chinesas, quer estatais quer privadas, na economia portuguesa. Não foi só a State Grid nem a China Three Gorges, o grupo Fosun não foi só à privatização dos Seguros da Caixa, agora comprou a Espírito Santo Saúde. E vamos ver se há mais interesse de investidores chineses. Digo que este interesse, tal como o de outros investidores estrangeiros, é um interesse que considero muito positivo, porque ele demonstra bem a confiança que Portugal inspira hoje em termos internacionais, a credibilidade que o país recuperou e, se isso não acontecesse, os investidores estrangeiros certamente não teriam o interesse que têm no nosso país em bons investimentos, em boas empresas, na criação de riqueza e emprego, portanto, penso que é extremamente positivo. A China é um grande player mundial e é um privilégio para Portugal ter estas relações com o país.

Na última viagem do Sr. Presidente da República, em maio, a Pequim, Xangai e Macau, integrei a comitiva e apercebi-me das ótimas relações políticas que existem entre os dois países e também das relações comerciais e de investimento que têm seguido uma trajetória muito positiva.

 

P.M. – Que balanço faz da implementação dos vistos gold?

M.F. – O balanço é muito positivo. Em menos de dois anos de programa tivemos mais de 1000 milhões de euros de investimento e mais uma vez a maior parte dos vistos gold que foram atribuídos foram para a China, mas numa percentagem muito elevada, mais de 80 ou 90%. De facto, pensamos que é um programa que tem atraído investidores e esperamos que possa continuar com este dinamismo que tem conhecido nos dois primeiros anos – faz agora em outubro dois anos que foi iniciado.

 

P.M. – E tem atraído o tipo de investimento que interessa a Portugal?

M.F. – É evidente que Portugal está interessado sobretudo em investimento reprodutivo, mas considero que o facto de a primeira porta de entrada poder ser o investimento imobiliário, isso também faz com que os empresários que se instalem em Portugal por esta via depois possam ter a oportunidade de investir noutras áreas que não o imobiliário. Portanto, pensamos que é uma boa porta de entrada que poderá, no futuro, dar frutos a outros níveis.

 

ENTRAR NA PLATAFORMA

P.M. – A maior parte das grandes empresas portuguesas já saíram de Macau. Como é que hoje Portugal olha para o mercado de Macau 15 anos depois da transferência de soberania?

M.F. – Olha de forma muito positiva. Tive a oportunidade de me reunir com o Sr. Secretário da Economia e Finanças, foi um encontro muito amistoso, muito interessante, em que foi reafirmado da parte do Governo da Região Administrativa Especial de Macau o propósito de solidificar as relações com Portugal e de poder ser um veículo privilegiado das relações da China com o nosso país. Da nossa parte foi demonstrado o interesse que existe em que Portugal possa ser um ponto também muito importante da relação da China e de Macau com os países da CPLP.

Portugal tem uma posição geográfica privilegiada, é um país que faz parte da União Europeia e é o país europeu mais próximo do continente americano e faz parte da CPLP. E estas vertentes conciliadas fazem de Portugal um parceiro natural quer para a China quer para Macau para se poder desenvolver harmoniosamente uma relação que possa extravasar o âmbito de Portugal-Macau-China e possa ser alargado aos outros países da CPLP.

E neste âmbito, a própria realização da MIF, que é um dos objetivos pelos quais me desloquei a Macau e que tem a participação de várias dezenas de empresas portuguesas, do setor agroalimentar, mas não só, é também um evento muito importante.

 

P.M. – Como vê este papel de Macau como plataforma e o projeto de criação de três centros neste âmbito e acha que Portugal poderia ter tirado partido desta situação antes da transferência?

M.F. – Penso que não nos serve de muito estar a olhar para o passado, acho que nos devemos focar no presente e no futuro sobretudo. E há aqui uma cooperação que pode e vai ser realizada, estou muito confiante nisso e a própria AICEP já está a colaborar com o Governo de Macau para o  desenvolvimento dessas três vertentes da plataforma.

 

P.M. – Quanto à internacionalização das empresas portuguesas, como descreve a atual situação?

M.F. – Ninguém gostaria de ter passado pela crise que nós passámos, e que penso que conseguimos dar a volta nos últimos anos, mas uma crise não tem que ser uma fatalidade, uma crise pode ser, como foi para as empresas portuguesas, uma oportunidade. Oportunidade de perceberem que o local para venderem os seus produtos não tinha que ser o mercado interno, tinha que ser sobretudo o mundo e isto porque o mercado interno é limitado. Somos um país de 10,5 milhões de habitantes e, portanto, para as nossas empresas poderem crescer, criar riqueza, postos de trabalho, tiveram que se virar para o mundo e viraram-se. Penso que foi um grande trabalho que os empresários portugueses fizeram.

As exportações passaram em três anos de menos de 30% da riqueza nacional para um valor à volta de 40%. Já foi uma boa evolução, mas nós queremos mais. Ainda estamos longe de valores de países europeus que são comparáveis com o nosso e que são bastante mais elevados em termos do peso das exportações na riqueza nacional e penso que há todas as condições para que esse caminho continue a ser trilhado, pese embora hoje a conjuntura mundial ter algumas nuvens e não haver perspetivas tão otimistas como havia há seis meses ou há um ano. Mas estou confiante de que o trabalho dos empresários portugueses vai continuar a dar frutos e é a eles que se deve a boa evolução das nossas exportações, a recuperação do investimento, tem sido a sua resiliência, a sua competência e o seu dinamismo que tem proporcionado estes resultados.

 

AUMENTAR VENDAS AO MUNDO

P.M. – Quais as expetativas em termos de exportações portuguesas para este ano e para o próximo? E qual o peso do mercado chinês?

M.F. – As expetativas para as exportações portuguesas para este ano são de continuação do crescimento após o melhor ano de sempre, que foi 2013, mas um crescimento que será mais lento do que foi em consonância com um abrandamento da economia mundial.

Para o próximo ano antevemos uma recuperação do dinamismo. Ou seja, não antevemos que haja um retrocesso em nenhum destes anos, antevemos que os anos continuem a ser, em termos de volume, os melhores de sempre, depois de 2013, 2014, depois 2015.

A China continuará a desempenhar um papel muito importante, continua a ser um dos mercados para onde as exportações portuguesas mais têm crescido e o facto de terem existido visitas, como a do Presidente Cavaco Silva, em maio último, e de outros governantes e também do presidente da AICEP, que está nesta altura em Macau e também em Hong Kong, tudo nos leva a crer que a China continuará a desempenhar um papel muito importante no crescimento e dinamismo das nossas exportações.

 

P.M. – Que produtos mais Portugal quer exportar para a China?

M.F. – Queremos exportar tudo aquilo que for possível, porque os produtos portugueses são hoje reconhecidos como tendo uma grande qualidade. O made in Portugal hoje é uma clara mais valia, não é como acontecia há duas ou três décadas, em que tinha uma conotação negativa. Hoje é encarado como uma enorme mais valia em variadíssimos setores, desde o agroalimentar, que é o tema principal desta MIF, mas também no calçado, onde as empresas portuguesas têm dado passos extraordinários e têm hoje uma posição de muito relevo, só a par do calçado italiano. É bom ver Portugal a bater-se de igual para igual como uma referência do calçado mundial. No têxtil, na própria produção de veículos automóveis, a China é um dos mercados para onde mais se dirige a exportação de veículos automóveis em Portugal, o turismo, aeronáutica, os moldes. Diria que é quase transversal, por isso, queremos exportar tudo aquilo que nos for possível, porque temos tido um dinamismo grande associado a praticamente todos os setores de atividade em que as exportações têm vindo a crescer e considero isso muito positivo.

 

P.M. – Quanto às exportações de laticínios para a China, qual é o ponto da situação?

M.F. – Esse foi um dos temas acordado aquando da última visita do Presidente Cavaco Silva. Houve um compromisso das autoridades chinesas para uma deslocação a Portugal no sentido de certificar as empresas portuguesas desse setor, tal como outros produtos do setor agroalimentar para que as exportações pudessem ser uma realidade a breve trecho. Tanto quanto sei isso está eminente. Houve já uma, ou mais do que uma, missão da República Popular da China a Portugal e, portanto, é uma situação que está para ser resolvida muito em breve, se é que não está já em andamento, e isso será muito importante para o nosso país.

 

P.M. – Há muito tempo que ouvimos falar na possibilidade de ligações diretas entre Portugal e a China, há novidades?

M.F. – Não há neste momento novidades em relação ao que foi avançado na visita do Sr. Presidente da República. Na altura foi demonstrado interesse por parte de operadores aéreos chineses em terem ligações diretas de Xangai ou Pequim para Lisboa. Estes assuntos e estas evoluções não ocorrem sempre com a velocidade desejada, mas esperemos que continuando as relações entre os dois países a ser mais sólidas, quer ao nível político – e já são muito boas – quer ao nível comercial, e incluo aqui o turismo, e de investimento, diria que estão criadas todas as condições para que, no futuro, essas ligações aéreas diretas possam ser uma realidade. E criar isso faz parte de um ciclo virtuoso, porque o facto de termos ligações diretas também será impulsionador das próprias relações económicas e de investimento, portanto, antevejo um futuro mais risonho ainda para as relações entre Portugal e a China. O caminho tem sido percorrido e vamos certamente chegar a bom porto.

 

Patrícia Neves

 

Este artigo está disponível em: 繁體中文

Artigos relacionados
Opinião

Liberalismo selvagem

Opinião

A Carne De Porco É Cara? Criemos Porcos!

Opinião

Pedido de Compensação Americano Terá Lugar Amanhã

Opinião

O caminho da montanha

Assine nossa Newsletter