ESCOLAS VÃO ENSINAR O PATRIOTISMO QUE HONG KONG REJEITOU - Plataforma Media

ESCOLAS VÃO ENSINAR O PATRIOTISMO QUE HONG KONG REJEITOU

 

Até 2020, o ensino da Educação Moral e Cívica vai ser obrigatório em todas as escolas de Macau. Ao contrário de Hong Kong, que rejeitou há dois anos uma proposta semelhante temendo uma “lavagem cerebral”, a medida tem passado ao lado do debate público no território. Vong Sou Kuan, especialista em Sociologia da Educação, fala em tentativa de criação de uma sociedade “obediente” e “monovocal”.

 

“Não se costuma dizer em Macau que somos uma sociedade harmoniosa?”, diz o padre Chow Pak Fai. “Ora, em Hong Kong não é assim”.

Voltando atrás dois anos: Hong Kong não aceita a introdução obrigatória da disciplina Educação Moral e Nacional nos currículos das escolas; dezenas de milhares de pessoas saem à rua para contestar o plano educativo de Pequim por temerem uma “lavagem cerebral”; o Governo da região recua na decisão, sustentando, porém, que a introdução da disciplina é apenas uma forma de promover o sentido de pertença e orgulho na nação.

O padre Chao sorri sempre, e é um sorriso aberto. O diretor do Instituto Salesiano (IS) de Macau conhece bem Hong Kong. Foi lá que nasceu e viveu até ao final dos anos 90, antes da fé o trazer até cá. “Em Macau somos diferentes, os cidadãos conseguem aceitar as coisas”.

Su Weng Leong, vice-diretor do IS, está sentado na mesma sala. Aqui dentro cabe uma mesa, um par de cadeiras, livros, documentos, um retrato do Papa João Paulo II. Su fala inglês perfeito, fruto de sete anos nos Estados Unidos. “Em Hong Kong, o nome da disciplina é sensível, as pessoas são sensíveis, mas temos de ver que aquela região esteve sob influência britânica e os valores que partilham são diferentes dos valores das pessoas de Macau. Nós aceitamos as coisas mais facilmente”, nota.

E o que Hong Kong combateu vai ser real em Macau. Muda o nome: Educação Moral e Cívica, uma disciplina que até agora foi opcional, mas que a partir de 2016 será uma componente obrigatória do currículo educativo local.

 

AMAR MACAU

A introdução com caráter obrigatório da disciplina nas escolas de Macau deverá acontecer gradualmente até 2020. Nesse ano, desde o ensino primário até ao secundário, a Educação Moral e Cívica será responsável pelo menos por 80 minutos semanais do calendário escolar dos alunos, clarifica o vice-diretor do IS, Su Weng Leong, ao mostrar o plano para a nova reforma curricular.

Apesar de ainda não ser conhecido ao certo o conteúdo a ser lecionado, Wong Kin Mou, chefe do departamento de Estudos e Recursos Educativos da Direção dos Serviços de Educação e Juventude, explicou recentemente que a disciplina deverá incluir aspetos políticos: “Temos de formar os cidadãos com um espírito patriótico, amar a pátria e amar Macau. Usamos o termo educação cívica porque somos uma Região Administrativa Especial, mas este abrange conteúdos patrióticos”.

Numa carta ao Governo, o deputado Mak Soi Kun referiu que a promoção da Lei Básica seria o suficiente para fazer chegar aos alunos esta noção.

Mas, em geral, os deputados batem palmas. “ Sem o conceito de Estado, um homem vive desenraizado”, diz a deputada Kwan Tsui Hang.

Chan Hong, também parlamentar e presidente da Associação de Educação de Macau, acredita que “amar o lar, amar o país e amar Macau é necessário. Esta ideologia deve ser aprendida desde a infância”.

De novo no Instituto Salesiano a campainha já tocou. Lá fora, um grupo de rapazes de uniforme joga à bola. A medida não causa estranheza, garante o vice-diretor Su Weng Leong. “É um dever básico saber mais sobre o seu próprio país”. E continua: “Como podemos educar estudantes para se sentirem mais chineses?”. A ideia principal, defende ainda assim o responsável, é promover o debate e o “pensamento crítico”.

 

“QUE TIPO DE CIDADÃO QUEREMOS FORMAR?”

Vong Sou Kuan, especialista em Sociologia da Educação da Universidade de Macau, fala da utilização de “medidas brandas” (soft measures) para promover o patriotismo. O ensino destes valores, explica a académica, poderá ter surgido por pressão de organizações pró-China e na sequência de uma série de eventos em Hong Kong e das manifestações de maio em Macau (contra uma lei de regalias para titulares dos principais cargos).

A educação cívica, continua a especialista, pretende fazer com que os estudantes sejam “obedientes” e se comportem da “forma esperada”.

“Que tipo de cidadão queremos formar? Se acreditamos que Macau se vai tornar numa cidade cosmopolita e ter um papel importante nas mudanças globais, então como preparamos os nossos estudantes se têm uma mentalidade tacanha?”.

A especialista deixa ainda a ressalva. Comparar Hong Kong e Macau não faz sentido. “Nós não temos uma classe média forte. Na realidade, foi toda absorvida pela Administração Pública. Se não levantarmos a voz, Macau será à superfície uma sociedade pacífica, mas na realidade é uma sociedade monovocal”.

No Instituto Salesiano, os alunos continuam a jogar à bola. “Não se trata de apontar o que está certo ou o que está errado, mas tentar apenas que os estudantes aprendam valores como a justiça e com base na discussão”, remata o vice-diretor.

 

Catarina Domingues

 

Este artigo está disponível em: 繁體中文

Artigos relacionados
Opinião

Liberalismo selvagem

Opinião

A Carne De Porco É Cara? Criemos Porcos!

Opinião

Pedido de Compensação Americano Terá Lugar Amanhã

Opinião

O caminho da montanha

Assine nossa Newsletter