Francis Choi Chi U - PASSADO, PRESENTE E FUTURO DO ENSINO DO PORTUGUÊS EM MACAU - Plataforma Media

Francis Choi Chi U – PASSADO, PRESENTE E FUTURO DO ENSINO DO PORTUGUÊS EM MACAU

Após a Declaração Conjunta, assinada a 13 de abril de 1987, pelos primeiros-ministros de Portugal e da China, Cavaco Silva e ZhaoZiyang, Macau entrou num período de transição e, 17 anos depois, voltou a fazer parte da China. Já lá vão quase 15 anos. Cavaco Silva, agora Presidente da República, visita Macau vindo da China continental, incluindo na sua agenda um encontro com os estudantes de tradução do Instituto Politécnico de Macau. Ocorrem-me, a propósito, duas reflexões: no plano cultural e económico, existe o compromisso de se diluírem as cores do antigo poder colonial, bem como esforços para se apagar o selo retrógrado de “país das batatas”; por outro lado, Portugal continua a chamar à atenção para o ensino da língua portuguesa em Macau, bem como para o papel da Região como plataforma para as relações sino-portuguesas.
No final da década de 60, andava eu na escola primária, ia muitas vezes com a minha mãe comprar vegetais à Rua do Campo. Gostava especialmente de uma ruela nas imediações, o “Beco das Caixas”, sempre apinhada de vendedores clandestinos que vendiam tudo mais barato. Porque não tinham licença, a inspeção aparecia com frequência para fazer “a limpeza” ao local. Sempre que se ouvia “Tio Boi!” (alcunha dada aos portugueses), os vendilhões recolhiam as suas bancas e corriam dali para fora. Os que não conseguiam fugir eram apanhados e espancados com bastões, a não ser que pagassem a “taxa de proteção”. Depois disso, com grande à-vontade, os “Tio Boi” diziam em português: “Adeus amigo”.
Durante a minha adolescência, o meu pai ia muitas vezes ao Departamento de Informação e Registo requerer um passaporte português, na esperança de que eu pudesse fazer vida lá fora e ter outra visão do mundo. Lembro-me que os macaenses acompanhavam os portugueses, no papel de tradutores. Durante muito tempo, o atendimento na administração era feito por macaenses que, embora falassem cantonês, não sabiam escrever os caracteres chineses.
Para a comunidade chinesa, a administração portuguesa tinha uma lógica colonialista. O Governador e os principais funcionários públicos vinham de Portugal, enquanto que os funcionários públicos menos importantes, advogados e notários já podiam ser macaenses. A divisão era muito nítida, uma vez que as crianças portuguesas estudavam nas escolas públicas portuguesas e as chinesas tinham de frequentar as escolas chinesas privadas.

NOVO CICLO

No período que se seguiu à assinatura da Declaração Conjunta, os chineses passaram a integrar a função pública, esforçando-se por aprender português. O Governo lançou uma série de programas de estudo em Portugal, tentando criar as bases para uma administração bilingue. Entretanto, a Lei Básica fixou o português como língua oficial em Macau, durante 50 anos, o que fez com que o português se tornasse disciplina obrigatória nas escolas públicas.
Os Serviços de Educação subsidiaram as escolas privadas para lecionarem cursos de português e o Governo esforçou-se para divulgar a cultura portuguesa de Macau. Do ponto de vista da comunidade chinesa, aprender português ou frequentar a Escola Portuguesa passou a ser um trampolim para ingressar na função pública, onde o salário era melhor e a carga de trabalho era menor.
Após o regresso de Macau à China, o Jardim de Infância D. José da Costa Nunes e a Escola Portuguesa tornaram-se escolas privadas, sendo que nas escolas públicas dos 1.º, 2.º e 3.º ciclos do ensino básico ainda se aprende português. No ensino secundário, o departamento de português da Escola Secundária Luso-Chinesa Luís Gonzaga Gomes oferece ao 3º ciclo e ao ensino secundário um plano formal de aprendizagem do português. E a Escola Luso-Chinesa Técnico-Profissional abriu o curso de Tradução Chinês-Português para o ensino médio, preparando alunos para as faculdades que lecionam em português – com destaque para os cursos de Direito e de Tradução.
Há alguns anos a esta parte, a Direção dos Serviços de Educação e Juventude (DSEJ) contratualiza em Portugal cursos superiores de língua e cultura portuguesa, nas férias de verão. Por cá, as escolas que ensinam português foram incumbidas de abrir cursos com a duração de três anos, começando no 3.º ano do 3.º ciclo e terminando no 2.º ano do ensino secundário. Já foram abrangidos por este plano 178 alunos, de 21 escolas. Este ano, através de um protocolo entre a DSEJ e a Universidade Católica são atribuídas bolsas para a formação de professores de português em Macau.
O Instituto Politécnico elaborou um curso preparatório de língua e de cultura portuguesa, depois do qual os alunos podem inscrever-se num bacharelato de português ou de espanhol e, posteriormente, num mestrado em Educação. No corrente ano letivo oito alunos foram já contemplados pelo plano de “Financiamento de Formação de Docentes de Língua Portuguesa”, recebendo apoios para estudar em Portugal. Assim que se formarem terão de regressar a Macau para lecionarem em instituições públicas.

FALTAM QUADROS BILINGUES

Há falta de quadros bilingues, que dominem o chinês e o português. Para além do curso de Direito, que abre as portas à advocacia e a altos cargos na função  pública, quem estudar português tem mais oportunidades de trabalho. No último ano, com o incremento das relações comerciais sino-lusófonas e a divulgação do turismo cultural nos países lusófonos, estudar português tornou-se uma prática comum, seja em escolas públicas, institutos superiores ou mesmo em regime de formação contínua. Uns atrás dos outros foram abrindo diferentes graus de ensino da língua portuguesa, seduzindo cada vez mais pessoas a prepararem-se para a entrada no mundo da Lusofonia.

Francis Choi Chi U
Professor de Gestão de Recursos
Humanos na Educação

Este artigo está disponível em: 繁體中文

Assine nossa Newsletter