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À beira do colapso

Paulo Rego*

A crise económica chinesa, sendo séria, é bem menos grave que muitas das outras que eclodem no globo. Porque Pequim tem vários paliativos: mercado interno, força produtiva, sofisticação tecnológica, capital público, banca estatal… há é limites para tudo; e, quando um privado espera um ano para receber da contratação pública, o alerta não é laranja – é vermelho. Na Rússia, a economia de guerra resiste porque o Kremlin desobriga-se do bem-estar e nível de vida da população – ao contrário do Palácio do Povo. Bruxelas esperava que Putin falisse com a invasão da Ucrânia; contudo, a ‘America First’ e o ‘bullying’ de Trump atiram a Europa ao tapete, com França e Alemanha à beira do ‘knockout’. É ingénuo pensar que o mundo vai mudar – já mudou. Aliás, está mesmo à beira do colapso.

É o fim de um ciclo que vem de longe – do fim da Segunda Guerra Mundial – durante o qual três gerações beneficiaram de crescimento económico, direitos sociais e políticos. E não foi só nos Estados Unidos e na Europa. O globalismo e o multilateralismo ajudaram a China a crescer dois dígitos, anos a fio; promoveram os tigres asiáticos; e, até, as economias africanas e latino-americanas mais eficientes. A queda hoje é tão drástica quanto é a perceção que ainda não bateu no fundo. Ainda vai ser pior, antes de ser melhor.

Primeiro o Covid; depois as guerras na Ucrânia e na Palestina, criaram em cima deste fim de ciclo uma mentalidade mais fechada, nacionalista e securitária. Muitas vezes lamento esse mindset, crescente na China; mas, verdade se diga, está longe de ser só cá; esse é mesmo o novo vírus global. Na mesa do café, entre amigos, nos conselhos de administração, entre sócios; nos antigos parceiros comerciais, agora em blocos antagónicos. Mais do que uma nova ordem – veremos o que aí vem – chegou a todo o lado a nova realidade.

O futuro não se deixa anunciar sem a Ásia, com epicentro na China. Mas Pequim também tem de se reinventar, se quer mesmo um ciclo de influência na nova ordem

Não é o fim do mundo; mas sim da forma como o víamos. E é nesse tabuleiro que a China joga nova oportunidade. Afinal, apesar do seu crescimento explosivo, nas últimas décadas, nunca liderou instituições internacionais, regras monetárias, mercados financeiros, ou poder militar. Também nunca foi antes possível um regime nacionalista de partido único liderar modelos globais; mas hoje tudo é diferente. Quando se olha para os Estados Unidos, e para o radicalismo crescente na Europa; é mais fácil ver a China como alternativa. O softpower, e a não-interferência na política dos seus parceiros, tornam a diplomacia económica chinesa cada vez mais competitiva face à realpolitik trumpista.

A crise é global; é económica e política; mas também é de valores e, sobretudo, de expectativas. O futuro não se deixa anunciar sem a Ásia – com epicentro na China. Mas Pequim também tem de se reinventar, se quer mesmo um ciclo de influência na nova ordem. Macau não inventa nada; não tem dimensão nem cultura política para isso; mas pode dar um contributo relevante, se a integração na Grande Baía der corpo à narrativa chinesa de abrir portas ao mundo. Neste lado da equação, a maior contradição em curso é a ilusão de que se pode fechar tudo, esconder lá dentro o ‘China First’; e convencer o mundo que é para abrir. Percebe-se o racional: medo da Perestroika; mas isso faz parte do problema – atrasa a solução. É muito difícil, quiçá mesmo impossível, encontrar equilíbrio nessa esparregata.

*Diretor Geral do Plataforma

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