O Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, anunciou, no discurso do Dia Nacional, a criação de um novo fundo de mil milhões de yuan destinado aos Países de Língua Portuguesa, bem como a formação de um novo centro de cooperação que incluirá também os países de língua espanhola. O governante da RAEM não avançou pormenores sobre o funcionamento do fundo. O PLATAFORMA tentou obter mais detalhes sobre o novo fundo e o novo centro, mas não obteve resposta até ao fecho da edição. Ainda assim, o anúncio foi suficiente para despertar expectativas sobre o reforço do papel de Macau como plataforma entre a China e o espaço ibero-americano, ampliando a estratégia que, desde há duas décadas, tem sido consolidada através do Fórum Macau.
Para Lou Shenghua, o novo fundo poderá complementar o existente mecanismo de cooperação sino-lusófona. “Uma vez que ainda não foram anunciados os detalhes sobre a criação do referido fundo, especula-se que este venha a complementar o atual Fundo de Cooperação e Desenvolvimento China–Países de Língua Portuguesa. Espera-se que o fundo, gerido por investidores sediados em Hengqin, incluindo a empresa de investimento da Zona de Cooperação Aprofundada e o Fundo de Investimento da Zona de Cooperação Aprofundada, tenha como objetivo promover o desenvolvimento da indústria de investimento financeiro entre a China e os Países de Língua Portuguesa. Pode entender-se que esta iniciativa ajudará Macau a desempenhar melhor o seu papel de plataforma de cooperação económica e comercial entre a China e os países lusófonos”.
Estou convencido de que esta iniciativa abrirá em Macau uma nova porta para o desenvolvimento das relações entre cada um dos países de língua espanhola e a China
Javier Serra, cônsul-geral adjunto e comissário sénior do Comércio de Espanha
“Com base nas informações limitadas disponíveis, especula-se que, caso o fundo venha a ser criado em Hengqin, o seu propósito será promover o desenvolvimento da indústria financeira moderna dessa região, dedicando-se principalmente a atividades de investimento em capital, gestão de investimentos, gestão de ativos e outras atividades financeiras. Assim, a criação deste fundo contribuirá para reforçar a cooperação financeira e de investimento entre a China e os Países de Língua Portuguesa”, explica Lou Shenghua ao PLATAFORMA.
Integração do mundo hispânico
A decisão de incluir também os países de língua espanhola no novo centro anunciado por Sam Hou Fai foi recebida com entusiasmo cauteloso pelo cônsul-geral adjunto e comissário sénior do Comércio de Espanha, Javier Serra.
“A inclusão dos países de língua espanhola amplia consideravelmente o âmbito de ação do centro, permitindo assim uma relação mais próxima entre Macau e países diferentes daqueles com os quais tem mantido uma parceria de longa data”, afirma o diplomata.
Serra vê nesta iniciativa uma oportunidade para Espanha e países da América Latina reforçarem a presença no mercado chinês: “Os nossos países irmãos na América têm as suas próprias estratégias em relação ao mercado chinês, mas partilhamos uma língua e uma cultura comuns, bem como um interesse crescente por esta parte do mundo. Estou convencido de que esta iniciativa abrirá em Macau uma nova porta para o desenvolvimento das relações entre cada um dos países de língua espanhola e a China. No caso de Espanha, as relações diplomáticas e empresariais com Macau têm sido tradicionalmente conduzidas através de Hong Kong, pelo que espero que agora tenhamos a oportunidade de uma abordagem mais direta”.
Questionado sobre um eventual desequilíbrio de influência entre Portugal e Espanha, Serra rejeita a ideia de competição: “Não o vejo como uma rivalidade, mas sim como espaços complementares. Os países de língua espanhola e portuguesa da América e de África, especialmente os maiores, como o México, o Brasil, o Peru, o Chile ou a Colômbia, não pertencem a uma esfera de influência de nenhum dos países europeus. Além disso, Espanha e Portugal, enquanto Estados-Membros da União Europeia, partilham um conjunto de valores e interesses, pelo que isto não é um jogo de soma zero”.
Sinergias e não sobreposição

Os objetivos deste novo centro, contudo, assemelham-se aos propostos pelo Fórum Macau – uma iniciativa do Governo Central, coordenada pelo Ministério do Comércio e pelo Governo da RAEM, que visa aprofundar as relações económicas, comerciais e culturais entre a China e os Países de Língua Portuguesa. Há também o Fundo de Cooperação e Desenvolvimento China–Países de Língua Portuguesa, com o objetivo de financiar projetos de investimento e estimular o comércio e a industrialização nos países participantes, tendo a sua sede em Macau e gestão partilhada entre o Banco de Desenvolvimento da China e o Fundo de Desenvolvimento da China–África.
Para Lou Shenghua, “o novo centro não enfraquecerá nem substituirá o papel do Fórum”, que tem alcançado “resultados notáveis” desde a sua criação, em 2003. “Acredita-se que, ao complementar as funções do Fórum, o novo centro trabalhará em conjunto para promover as trocas económicas e comerciais entre a China e os Países de Língua Portuguesa”.
Ao complementar as funções do Fórum, o novo centro trabalhará em conjunto para promover as trocas económicas e comerciais entre a China e os Países de Língua Portuguesa
Lou Shenghua, professor de Ciências Políticas da Universidade Politécnica de Macau
Já Javier Serra salienta que “o Fórum Macau centra-se em intercâmbios de alto nível, como as Conferências Ministeriais.” O Fórum reúne regularmente representantes ministeriais de todos os países membros — incluindo Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Timor-Leste e São Tomé e Príncipe — e tem sido um dos principais canais diplomáticos e económicos entre o mundo lusófono e a China. “O futuro deste novo centro dependerá das possibilidades concretas que possa oferecer às empresas de todas as partes para facilitar as relações comerciais e de negócio, para além dos canais já existentes.”
O anúncio do fundo e do novo centro é interpretado como um sinal de continuidade e expansão da política externa económica de Macau. Lou Shenghua resume: “Pode afirmar-se que as medidas em questão contribuirão para reforçar e consolidar o papel de Macau como plataforma de cooperação económica e comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa.”
A aposta em integrar o mundo hispânico nessa dinâmica poderá representar uma nova etapa para Macau, consolidando-a como uma faixa estratégica nas ligações entre a China e o espaço ibero-americano.
O PLATAFORMA contactou o Fórum Macau que apenas respondeu que “qualquer iniciativa que visa dinamizar sinergias de objetivos comuns será sempre positivo”.