Início » “Espero que agora tenhamos a oportunidade de uma abordagem mais direta [com Macau]”

“Espero que agora tenhamos a oportunidade de uma abordagem mais direta [com Macau]”

O fundo de mil milhões de yuan e o novo centro para Países de Língua Portuguesa e Espanhola, anunciados por Sam Hou Fai no discurso do Dia Nacional, a 1 de outubro, apontam para uma relação “mais direta” de Macau com o mundo hispânico, “tradicionalmente conduzida através de Hong Kong”, diz Javier Serra, cônsul-geral adjunto do Consulado espanhol em Hong Kong. Sobre uma possível sobreposição com o papel do Fórum Macau, Lou Shenghua, professor de Ciências Políticas da Universidade Politécnica de Macau, defende que as novas iniciativas “não enfraquecem nem substituem” as suas responsabilidades, prevendo um “complementar de funções”

Fernando M. Ferreira

O Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, anunciou, no discurso do Dia Nacional, a criação de um novo fundo de mil milhões de yuan destinado aos Países de Língua Portuguesa, bem como a formação de um novo centro de cooperação que incluirá também os países de língua espanhola. O governante da RAEM não avançou pormenores sobre o funcionamento do fundo. O PLATAFORMA tentou obter mais detalhes sobre o novo fundo e o novo centro, mas não obteve resposta até ao fecho da edição. Ainda assim, o anúncio foi suficiente para despertar expectativas sobre o reforço do papel de Macau como plataforma entre a China e o espaço ibero-americano, ampliando a estratégia que, desde há duas décadas, tem sido consolidada através do Fórum Macau.

Para Lou Shenghua, o novo fundo poderá complementar o existente mecanismo de cooperação sino-lusófona. “Uma vez que ainda não foram anunciados os detalhes sobre a criação do referido fundo, especula-se que este venha a complementar o atual Fundo de Cooperação e Desenvolvimento China–Países de Língua Portuguesa. Espera-se que o fundo, gerido por investidores sediados em Hengqin, incluindo a empresa de investimento da Zona de Cooperação Aprofundada e o Fundo de Investimento da Zona de Cooperação Aprofundada, tenha como objetivo promover o desenvolvimento da indústria de investimento financeiro entre a China e os Países de Língua Portuguesa. Pode entender-se que esta iniciativa ajudará Macau a desempenhar melhor o seu papel de plataforma de cooperação económica e comercial entre a China e os países lusófonos”.

Estou convencido de que esta iniciativa abrirá em Macau uma nova porta para o desenvolvimento das relações entre cada um dos países de língua espanhola e a China

Javier Serra, cônsul-geral adjunto e comissário sénior do Comércio de Espanha

“Com base nas informações limitadas disponíveis, especula-se que, caso o fundo venha a ser criado em Hengqin, o seu propósito será promover o desenvolvimento da indústria financeira moderna dessa região, dedicando-se principalmente a atividades de investimento em capital, gestão de investimentos, gestão de ativos e outras atividades financeiras. Assim, a criação deste fundo contribuirá para reforçar a cooperação financeira e de investimento entre a China e os Países de Língua Portuguesa”, explica Lou Shenghua ao PLATAFORMA.

Integração do mundo hispânico

A decisão de incluir também os países de língua espanhola no novo centro anunciado por Sam Hou Fai foi recebida com entusiasmo cauteloso pelo cônsul-geral adjunto e comissário sénior do Comércio de Espanha, Javier Serra.

“A inclusão dos países de língua espanhola amplia consideravelmente o âmbito de ação do centro, permitindo assim uma relação mais próxima entre Macau e países diferentes daqueles com os quais tem mantido uma parceria de longa data”, afirma o diplomata.

Serra vê nesta iniciativa uma oportunidade para Espanha e países da América Latina reforçarem a presença no mercado chinês: “Os nossos países irmãos na América têm as suas próprias estratégias em relação ao mercado chinês, mas partilhamos uma língua e uma cultura comuns, bem como um interesse crescente por esta parte do mundo. Estou convencido de que esta iniciativa abrirá em Macau uma nova porta para o desenvolvimento das relações entre cada um dos países de língua espanhola e a China. No caso de Espanha, as relações diplomáticas e empresariais com Macau têm sido tradicionalmente conduzidas através de Hong Kong, pelo que espero que agora tenhamos a oportunidade de uma abordagem mais direta”.

Questionado sobre um eventual desequilíbrio de influência entre Portugal e Espanha, Serra rejeita a ideia de competição: “Não o vejo como uma rivalidade, mas sim como espaços complementares. Os países de língua espanhola e portuguesa da América e de África, especialmente os maiores, como o México, o Brasil, o Peru, o Chile ou a Colômbia, não pertencem a uma esfera de influência de nenhum dos países europeus. Além disso, Espanha e Portugal, enquanto Estados-Membros da União Europeia, partilham um conjunto de valores e interesses, pelo que isto não é um jogo de soma zero”.

Sinergias e não sobreposição

Os objetivos deste novo centro, contudo, assemelham-se aos propostos pelo Fórum Macau – uma iniciativa do Governo Central, coordenada pelo Ministério do Comércio e pelo Governo da RAEM, que visa aprofundar as relações económicas, comerciais e culturais entre a China e os Países de Língua Portuguesa. Há também o Fundo de Cooperação e Desenvolvimento China–Países de Língua Portuguesa, com o objetivo de financiar projetos de investimento e estimular o comércio e a industrialização nos países participantes, tendo a sua sede em Macau e gestão partilhada entre o Banco de Desenvolvimento da China e o Fundo de Desenvolvimento da China–África.

Para Lou Shenghua, “o novo centro não enfraquecerá nem substituirá o papel do Fórum”, que tem alcançado “resultados notáveis” desde a sua criação, em 2003. “Acredita-se que, ao complementar as funções do Fórum, o novo centro trabalhará em conjunto para promover as trocas económicas e comerciais entre a China e os Países de Língua Portuguesa”.

Ao complementar as funções do Fórum, o novo centro trabalhará em conjunto para promover as trocas económicas e comerciais entre a China e os Países de Língua Portuguesa

Lou Shenghua, professor de Ciências Políticas da Universidade Politécnica de Macau

Já Javier Serra salienta que “o Fórum Macau centra-se em intercâmbios de alto nível, como as Conferências Ministeriais.” O Fórum reúne regularmente representantes ministeriais de todos os países membros — incluindo Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Timor-Leste e São Tomé e Príncipe — e tem sido um dos principais canais diplomáticos e económicos entre o mundo lusófono e a China. “O futuro deste novo centro dependerá das possibilidades concretas que possa oferecer às empresas de todas as partes para facilitar as relações comerciais e de negócio, para além dos canais já existentes.”

O anúncio do fundo e do novo centro é interpretado como um sinal de continuidade e expansão da política externa económica de Macau. Lou Shenghua resume: “Pode afirmar-se que as medidas em questão contribuirão para reforçar e consolidar o papel de Macau como plataforma de cooperação económica e comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa.”

A aposta em integrar o mundo hispânico nessa dinâmica poderá representar uma nova etapa para Macau, consolidando-a como uma faixa estratégica nas ligações entre a China e o espaço ibero-americano.
O PLATAFORMA contactou o Fórum Macau que apenas respondeu que “qualquer iniciativa que visa dinamizar sinergias de objetivos comuns será sempre positivo”.

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website