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O Norte está em Cantão

Paulo Rego*

Huang Kunmin, muito mais que um peso pesado em Cantão – secretário do Partido Comunista em Guangdong – é a estrela de Pequim que desce à província, em Outubro de 2022; vindo diretamente do universo de Xi Jinping, que em 2017 lhe confia a via do Politburo – do qual ainda faz parte – nessa altura, com a pasta da propaganda. Foi ele, sem surpresa, o primeiro a receber Sam Hou Fai, mal o Chefe do Executivo tomou posse, em busca de um norte para Macau. Estará mais nublado o horizonte do Gabinete para Hong Kong e Macau? A linha é a mesma; aliás, nesta altura, só uma toma decisões. Mas o tom é diferente, e a forma diverge, como as redes de influência – guanxi. Cimenta-se em Macau a convicção de que terá sido esse o terremoto que abalou Ho Iat Seng, que estaria mais próximo da constelação de Xia Baolong – ou achava que estava.

O discurso de Xi Jinping é claro: Hengqin existe para ajudar à diversificação de Macau; os desvios a esse desígnio não podem ser apoiados. Não é tradução literal, mas é o sentido da mensagem que cá deixou em Dezembro; imediatamente plasmada no relatório das Linhas de Ação Governativa: Macau vai investir na segunda fase de desenvolvimento de Hengqin – industrialização – seguindo o plano que lá está desenhado. Em surdina, cresce o incómodo local; ninguém contesta, mas as elites sentem deslaçar as teias de interesse locais; a população teme a concorrência no emprego; e o poder político sabe que pisa a linha vermelha da autonomia. Os sinais são de reforço da tradicional influência do PC de Guangdong; decisiva no tempo colonial.

Há forças específicas, muito fortes a nível nacional, e enorme capacidade centrifugadora no contexto regional; com poder político, capital de investimento, tradição internacional, e mão-de-obra qualificada

Sam Hou Fai deixa pistas: por um lado, diz, os jovens precisam de mundo, não é só cá que vão crescer; por outro, não é possível diversificar sem as oportunidades que Hengqin abre. A agulha aponta agora para um ambiente amigo dos negócios; um regime fiscal competitivo – incluindo legislação offshore – e canais de internacionalização, para captar investimento e empresas que percebam as vantagens de atuar na Grande Baía, a partir da RAEM. É uma tese, com sentido teórico; e, na prática, riscos óbvios. Este Governo assume o novo ciclo, sem reservas; ao contrário de um passado recente que, embora amigo do nacionalismo, nunca foi verdadeiramente consequente em Hengqin. Edmund Ho foi o primeiro e o último a ter uma ideia: comprar a Ilha da Montanha – liminarmente abortada por Cantão.

O que está em curso já não tem travão, mas há curvas perigosas pelo caminho. Primeiro, do ponto de vista político, jurídico, e fiscal, resta saber como esta deslocação do investimento pode, de facto, ter reflexos na RAEM ao nível da diversificação da receita, distribuição do PIB, e criação de emprego. Depois, faz toda a diferença ter em Henqgin um instrumento que verdadeiramente sirva Macau; ou ter subsidiariamente de pagar, com os impostos do Jogo, um projeto que aqui ao lado tem um longo historial de erros de conceção, e atrasos na concretização.

Toda a gente responde a Pequim – Cantão também. Mas aqui ao lado há forças específicas, muito fortes a nível nacional, e enorme capacidade centrifugadora no contexto regional; com poder político, capital de investimento, tradição internacional, e mão-de-obra qualificada. E sabem bem, como Macau sabe, que não se sabe nem se quer concorrer; tentou-se, ingenuamente, evitar esse papão, em vez de o tentar seduzir. Agora, que tudo mudou, vai mesmo tudo ter de mudar; a começar pela forma como se lê a bússola. Ou as gentes de Macau aprendem a ler o norte, encontrando o seu próprio destino; ou será o Norte simplesmente a ditá-lo.

* Diretor-Geral do PLATAFORMA

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