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Três mitos sobre a China que se revelaram errados

Dan Steinbock, colaborador do Instituto Índia, China e América (EUA), do Instituto de Estudos Internacionais de Xangai (China) e do Centro da UE (Singapura)*

Alguns meios de comunicação ocidentais têm atribuído à China o risco de inflação e deflação a nível mundial. Mais recentemente, que a economia chinesa está prestes a entrar em colapso. Na realidade, a recuperação económica da China intensificar-se-á no segundo semestre deste ano.

A guerra de informação é o novo normal nos media internacionais. As vozes contrárias não são apenas marginalizadas, mas excluídas por algoritmos. Além disso, a linha entre ideologias e factos esbateu-se. O colunista do New York Times, Bret Stephens, acredita que a economia chinesa está em declínio secular (29 de agosto), tal como nega as alterações climáticas e promove a política externa neoconservadora.

Os conflitos de interesses de alguns “líderes de opinião” são óbvios. Peter St Onge, do The Hill, que declarou que a China entrou em colapso (13 de setembro), é membro da Heritage Foundation, um think tank ativista neoconservador. A Bloomberg entrevistou Kyle Bass, especialista sobre a China, que afirmou que “a economia chinesa está a dar voltas” (11 de setembro). Bass é um investidor sediado no Texas e membro de vários grupos anti-China que, durante anos (sem sucesso), utilizou o seu fundo de investimento para apostar contra a China e o yuan. A sua alegada manipulação de ações está a ser analisada pelos reguladores americanos e pelo The Wall Street Journal.

Depois, houve o bizarro artigo da Newsweek (5 de setembro), sugerindo que Xangai “se transformou numa ‘cidade fantasma’” devido ao colapso económico da China. O artigo baseou-se num tweet do “jornalista independente” Michael Yon, que cita um misterioso “amigo da China”.

Yon é um ex-membro das “Forças Especiais” que supostamente passou mais tempo “embutido em unidades de combate” do que qualquer outro jornalista no Iraque e tem aparecido em zonas desestabilizadas desde então, incluindo Hong Kong, em 2019. No passado, a sua credibilidade foi posta em causa pelos meios de comunicação social norte-americanos e até pelo Pentágono.

Nos últimos três trimestres, os três mitos mediáticos sobre os riscos da China foram a inflação, a deflação e o colapso. Mas quais são os factos?

Quando a China retirou as medidas de prevenção e controlo da Covid-19 e começou a reabrir a sua economia no início deste ano, observadores internacionais avisaram que a segunda maior economia do mundo se tornaria uma “ameaça global à inflação”. Havia um problema com a narrativa. Os números não a sustentavam, como demonstrei no meu artigo de opinião publicado no China Daily, em março.

Após o primeiro trimestre do ano, viraram a sua narrativa do avesso. Quando a taxa de inflação chinesa se manteve estável em junho, afirmaram que a China enfrentava um colapso deflacionário iminente.

Mas será que a China representa de facto um risco de deflação a nível mundial? Isso pressupõe que os níveis de preços na China refletem uma queda sustentada e que essa deflação é de alguma forma exportada para todo o mundo.

Na realidade, não estavam reunidas condições para a deflação, como demonstrei no meu artigo de opinião de julho. Nessa altura, previ que apesar dos ventos contrários internacionais, a recuperação da China “está a fortalecer… e é provável que a recuperação económica se fortaleça na segunda metade do ano”. Hoje, parece ser esse o caso.

Os dados económicos de agosto, melhores do que o previsto, sugerem que a recuperação económica da China está a consolidar-se. Do lado da oferta, o valor acrescentado industrial registou um aumento anual de 4,5 por cento. Do lado da procura, as vendas a retalho, um dos principais indicadores do consumo, superaram as expetativas, na sequência do pico das viagens de verão e das medidas de incentivo ao consumo.

Nos próximos trimestres, é provável que a retoma se reforce ainda mais com os estímulos, incluindo o aumento das deduções fiscais. E os primeiros sinais sugerem que a recuperação do consumo irá acelerar durante os próximos feriados do Dia Nacional.

A principal questão para a recuperação interna continua a ser o mercado imobiliário em dificuldades, embora os decisores políticos esperem restaurar a confiança dos consumidores no setor através de um rácio de entrada reduzido e de um limite máximo para as novas taxas de hipoteca. Estes são passos na direção certa, mas é necessário fazer mais para estabilizar o setor.

À medida que a recuperação ganha ritmo nas cidades de primeira linha, os decisores políticos esperam também ver efeitos positivos noutras cidades e regiões. As taxas de desemprego em idade ativa estão quase ao nível anterior à pandemia e o aumento dos rendimentos está a impulsionar níveis de depósito acima da média. O aumento do desemprego juvenil, que se situa nos 20 por cento, está relacionado com o momento das guerras comerciais e da geopolítica, que fomentam a instabilidade e a incerteza, penalizando o investimento e a contratação.

São necessárias políticas orçamentais de apoio, bem como uma orientação monetária acomodatícia. Na sexta-feira, o Banco Popular da China, o banco central do país, manteve a taxa de juro inalterada, mas aumentou a liquidez através de empréstimos a médio prazo. Há quem diga que isto é inadequado, mas o banco central pode adiar os cortes nas taxas devido aos investimentos estratégicos na nova economia, incluindo eletrónica e software, infraestruturas elétricas e ferroviárias e o aumento do capital investido pelas empresas automóveis em veículos elétricos, cujas vendas estão em expansão.

Além disso, a forte queda dos semicondutores, induzida pela geopolítica, pode estar a atingir o seu ponto mais baixo. E o impressionante Mate 60 5G da Huawei sugere que a China está a avançar para a autossuficiência em alta tecnologia muito mais rápido do que o esperado.

Os difíceis ventos contrários externos refletem, por enquanto, alguma moderação. Enquanto se mantiverem o unilateralismo geopolítico e o protecionismo do Ocidente, é provável que a procura mundial permaneça lenta, pesando fortemente sobre a recuperação mundial.

A zona euro está a lidar com a recessão, o Reino Unido debate-se com o impacto desastroso do Brexit, a economia dos EUA está a namorar com os riscos de recessão e a crescente dívida do Japão continua a manter a estagnação e a deflação persistentes. Em contrapartida, o crescimento da China poderá situar-se entre 4,5% e 5% este ano. Tendo em conta as guerras comerciais dos EUA contra a China e o seu objetivo geopolítico, seria um feito impressionante.

*Artigo de opinião originalmente publicado no China Daily

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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