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“Há muita procura pelos talentos que saibam falar a língua portuguesa”

Catarina Brites SoaresCatarina Brites Soares

A Universidade de Estudos Estrangeiros de Pequim quer combater a falta de conhecimento entre a cultura chinesa e portuguesa. Foi por isso que aderiu ao Mapas do Confinamento – que agrega e difunde artistas lusófonos. A diretora do Departamento de Português acredita que esta é uma forma de contribuir para a aproximação entre os dois mundos

Luís de Camões, Fernando Pessoa e José Saramago são dos poucos nomes da literatura lusófona conhecidos e traduzidos na China. A Faculdade de Estudos Hispânicos e Portugueses, da Universidade de Estudos Estrangeiros de Pequim (BFSU, na sigla inglesa) quer alargar o espectro e foi também por isso que aderiu ao Mapas do Confinamento.
A plataforma online foi criada pelos escritores portugueses Gabriela Trindade e Nuno Garcia, e agrupa mais de cem artistas lusófonos. Os conteúdos, que eram traduzidos em francês e inglês, passam a estar também em chinês.

“A razão principal para aderir ao projeto reside na oportunidade de praticar e cultivar a competência de leitura e tradução dos alunos dos cursos de graduação e pós-graduação em língua portuguesa. Ademais, como a BFSU é uma das melhores universidades de estudos internacionais da China, assumimos a responsabilidade de ‘apresentar o mundo à
China e vice-versa’”, sublinha a diretora do Departamento de Português daquela que foi a primeira faculdade dedicada ao idioma no Continente.

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Diana Zhang acredita que esta será mais uma via para trazer novos autores e obras dos Países de Língua Portuguesa ao leitor chinês. “Ajudando os chineses a aprofundar o conhecimento sobre a cultura do mundo lusófono, e promovendo o intercâmbio cultural e interpessoal entre os dois lados já que são poucos os escritores portugueses conhecidos na China com exceção de Saramago, Fernando Pessoa e Camões”.

Nuno Garcia, um dos fundadores, afirma que a tradução para mais um idioma é um passo importante para o Mapas do Confinamento. “Vai contribuir para uma aproximação entre duas das línguas mais importantes do mundo. As várias culturas em português são pouco conhecidas na China. Acreditamos que a chegada das realidades literárias lusófonas, tanto de África como do Brasil e Europa, à língua chinesa possa ser bastante proveitosa para os leitores na China”, realça.

O escritor acrescenta que a parceria com a Universidade de Estudos Estrangeiros de Pequim, tal como a que existe com as universidades de Oxford e Jean Monnet, tem um potencial enorme.

“A principal mais-valia assenta na hipótese de podermos chegar a mais de mil milhões de leitores chineses, e de os fazer compreender a importância e o alcance global da língua portuguesa”, diz, com a ressalva de que esse potencial tem sido negligenciado pelos governos lusófonos.

“É incompreensível, por exemplo, que, tendo a língua portuguesa muitos mais falantes nativos do que, por exemplo, a língua francesa, possua, a nível de prestígio e de alcance internacional, apenas uma fração da importância da última. Como emigrantes e trabalhadores da língua ficamos sempre com a impressão de que não merecemos a língua que temos. É como ter o motor de um Ferrari dentro de um carro sem rodas”, critica.

Não há economia sem cultura

Até 1999, apenas a Beiwai e a Universidade de Estudos Internacionais de Xangai ofereciam licenciaturas em português. Segundo a Lusa, hoje serão cerca de 50 as instituições chinesas de ensino superior com cursos de língua portuguesa. Diana Zhang recorda que a oferta na China começou a subir nos últimos dez anos e que a maioria dos alunos acaba a trabalhar nos setores de comércio, de diplomacia, de imprensa e de construção civil. “Porém, há um número crescente de estudantes que estão a optar por mestrados e doutoramentos para trabalhar em tradução e cultura”, realça.

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Marta Han é um desses casos. A experiência valeu-lhe o lugar de coordenadora e tradutora no Mapas de Confinamento com a parceria entre o Mapas e a BFSU, onde se licenciou.“A faculdade nasceu com objetivos políticos e económicos. O Governo quer que quem se forma na nossa universidade contribua para as cooperações político-económicas entre a China e outros países. Muitos diplomatas chineses formaram-se na BFSU”, frisa.

A académica de Chongqing diz que o ensino na faculdade onde estudou é muito focado na tradução e interpretação, mas que a literatura e a arte lusófonas são por vezes ignoradas. “Por causa da barreira linguística e razões comerciais, a circulação das literaturas em português não é comum na China. Mesmo os estudantes da língua portuguesa não têm muito acesso e em muitos casos só conhecem os mais canonizados”, repara.

“Este projeto será uma ótima oportunidade para que se conheçam autores e artistas contemporâneos, e para praticar técnicas de tradução”, refere Marta Han, que durante a licenciatura esteve um ano no Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, da Universidade de Lisboa. A estudante corrobora que o interesse da China pela cultura lusófona é maior, e fundamenta com a criação do Fórum Macau. “O intercâmbio cultural reforça o entendimento mútuo dos povos e aprofunda as cooperações noutras áreas. Muitas empresas chinesas já entraram ou querem entrar nos mercados de língua portuguesa. Não atingirão sucesso se não conhecerem as culturas locais”.

Preconceitos à parte

“Claro que são duas culturas bem distantes, mas exatamente por causa dessa grande diferença, os dois povos estão curiosos em conhecer a cultura do outro”, acrescenta Diana Zhang. Prova disso, refere a diretora da faculdade, é a iniciativa da Embaixada de Portugal em Pequim de traduzir obras literárias portuguesas e chinesas, como aconteceu com o livro Arte de Música, de Jorge de Sena.

A académica foca também o Fórum Literário Portugal-China, com a chancela dos Ministérios da Cultura dos dois países. “Acredito que daqui a uns anos, haverá mais livros traduzidos e mais leitores interessados pelas obras”. Nuno Garcia defende que o interesse se constrói promovendo uma estrada de dois sentidos. “A literatura, como toda a arte, é a principal arma contra as incompreensões histórico-culturais e os preconceitos, como os que existem no meu país em relação à China e à cultura chinesa”, condena.

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“Se chegasse mais literatura chinesa aos portugueses de certeza que o preconceito, quase sempre baseado na ignorância involuntária, diminuiria. O mesmo acontecerá na China. Portugal é colocado no cesto dos pequenos países ocidentais com uma História imperialista de opressão colonial, quando o Portugal atual é muito mais do que o resultado desse passado”.

Na muche

Diana Zhang realça que, no âmbito da implementação da iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”, a China tem reforçado a cooperação internacional, o que fomentou a procura crescente por quadros que dominem línguas e culturas estrangeiras. “Os alunos e pesquisadores escolhem esta via a fim de contribuir para o intercâmbio e a comunicação entre a China e o mundo lusófono cuja população e PIB representam uma percentagem considerável do globo”, vinca. “Há muita procura pelos talentos que saibam falar a língua portuguesa”. Foi a pensar nisso que Marta Han escolheu estudar português apesar de ter hesitado pelo castelhano.

“No início pensava que o Brasil era um mercado enorme, e falar português quase me garantiria um bom emprego na área de tradução e interpretação. Quando experimentei ser intérprete em ocasiões importantes, descobri que o que queria era Literatura”.

Mudou de rumo, candidatou-se ao mestrado de Modern Languages da Universidade de Oxford e hoje reparte-se entre a tradução e a investigação sobre literaturas africana pós-
-colonização de língua portuguesa e literatura brasileira contemporânea. “Não me arrependi nem um pouco porque o mundo português não é tão estudado como o espanhol ou francês. Sinto-me uma privilegiada por poder conhecer e estudar o que outros não conhecem. E também acho que isso contribui para o equilíbrio entre países”, vinca.

Zhang acrescenta que com a globalização devemos construir uma comunidade de futuro partilhado e que para concretizar o objetivo é preciso haver aprendizagem mútua. “A língua é a ferramenta de comunicação e a janela por via da qual conhecemos um país”.

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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