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“A curiosidade em relação à China existe no mundo todo e África não está fora disso”

Catarina Brites SoaresCatarina Brites Soares

Numa altura em que mais livros de José Eduardo Agualusa serão traduzidos para chinês, o escritor fala ao PLATAFORMA sobre o que o inquieta. “O Paraíso e Outros Infernos”, “Os Vivos e os Outros”, “Teoria Geral do Esquecimento”, “A Nação Crioula”, “Um Estranho em Goa” e “O Terrorista Elegante”, este escrito com o moçambicano Mia Couto, vão aumentar o leque de obras que podem ser lidas na língua. O avanço tecnológico – sendo a China o expoente máximo – sem um desenvolvimento ético que o acompanhe é um dos temas que preocupa o autor. O angolano condena ainda os tempos “absurdos e de irracionalidade” em que vivemos

– “O Mais Belo Fim do Mundo”, publicado no ano passado, recai sobre o que apelida de “estranhos tempos que estamos a atravessar”. Que tempos são esses?

José Eduardo Agualusa- O livro pega nos tempos estranhos do ponto de vista político – do reinado de Donald Trump e depois de Jair Bolsonaro, da ascensão de uma extrema-direita muito irracional, e na pandemia. No fundo, de uma certa irracionalidade e como se vai instalando. É um tempo largamente refém do absurdo.

– Um absurdo que tem na ascensão da extrema-direita a maior materialização, a seu ver?

J.E.A.- O quotidiano dos países governados por Trump e Bolsonaro, que é uma espécie de Trump em versão mais rústica e menos inteligente, passou a ser muito marcado por uma série de absurdos que contaminaram o planeta. De repente, passa a fazer parte da realidade. Tenho estado em Lisboa e, agora com o período eleitoral, vejo como esta força que se diz de extrema-direita está presente e foi normalizada. A forma como normalizamos o que não é normal é o que me interessa tratar.

– Afirmou que o que liga o livro ao romance “Os Vivos e os Outros” é a ideia de que a humanidade precisa de se reinventar. Que papel deve ter a literatura?

J.E.A.- A pandemia é uma consequência de um modelo de desenvolvimento que não é sustentável. O que fica claro é que temos de mudar. A literatura é um exercício de reflexão. O bom romance não é o que dá respostas, mas o que coloca questões. O papel da literatura é inquietar os leitores.

– Diz que é “importante a utopia, um pensamento mais radical”. Deixamos de sonhar?

J.E.A.- Com a queda do muro de Berlim e do bloco socialista instalou-se a ideia de que a utopia tinha acabado. Mais do que nunca, temos de criar novas utopias e questionar todos os modelos. Por exemplo, a questão da violência e dos exércitos. Como é que no século XXI ainda podemos tolerar a existência de instituições cujo único fim é ensinar a matar?

– Vivemos períodos de viragem, mas que podem ter vários desfechos.

J.E.A.- Estamos a assistir a um avanço tecnológico aceleradíssimo. A China é exemplo disso. Ainda agora escrevi um texto sobre estes inventos incríveis, como o sol artificial que criou. Se não houver, a par deste desenvolvimento científico e tecnológico, um acompanhamento ético das sociedades e de quem as dirige, muito mal estaremos nós.

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 – Os sinais assustam-no?

J.E.A.- É claro que sistemas não democráticos me assustam. Se temos este saber acumulado gerido por regimes não democráticos ou por democracias como a americana – que tem muito pouco de democrática… Imaginemos que o Trump continua à frente dos Estados Unidos da Amércia. Que segurança me dá? Na verdade, entre o Trump e a China governada como está a ser hoje, prefiro o sistema chinês, estou mais seguro. Mas não é o sistema ideal porque não é o democrático. Neste momento, de revolução tecnológica extremamente acelerada, gostaria que houvesse um equivalente processo de desenvolvimento ético e moral. Houve uma evolução, mas tem de ser mais rápida para acompanhar a tecnológica, que implica muito poder na mão de muito poucos.

– A pandemia e o que resultou dela, incluindo a discriminação dos países africanos, é outro tema sobre o qual tem escrito. O que mostrou a pandemia?

J.E.A.- Que o mundo é um barco no qual todos navegamos. Ninguém vai sobreviver, se não sobrevivemos todos. Não estamos em bolhas. Luanda é uma cidade de grande desigualdade. Os ricos têm clínicas, os pobres não, mas os mosquitos que provocam malária mordem a todos. Não há mais espaço para a desigualdade.

– “O Paraíso e Outros Infernos”, também traduzido para chinês, atravessa vários temas como a eleição de Donald Trump e a prisão de Luaty Beirão, entre outros angolanos por crime de pensamento em 2015. São assuntos passíveis de interessar ao leitor chinês?

J.E.A.- Da mesma forma que o que se passa na China me interessa muito. Para um leitor chinês interessado, que veja a literatura como uma janela, que é o que ela é, acho que sim. É um olhar angolano, africano, sobre o mundo. A China tem milhões de habitantes nos países africanos. As relações, sobretudo as comerciais, são muito intensas e por isso acredito que exista curiosidade. Uma maneira de conhecer melhor um país é através da sua literatura. O número de emigrantes chineses diminuiu consideravelmente, mas chegaram a estar mais de 300 mil em Angola.

– A relação económica corresponde a um crescente interesse cultural?

J.E.A.- Está a começar. A China é cada vez mais a grande potência, sobretudo do ponto de vista tecnológico. O poder económico é sempre acompanhado por um maior poder cultural. A curiosidade em relação à China existe no mundo todo e África não está fora disso.

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– A presença chinesa nos países africanos é bem vista em Angola?

J.E.A.- A China deveria investir mais no plano cultural. A questão da arquitetura é um aspeto flagrante. O país tem grandes arquitetos, mas o que constrói ou ajuda a construir – onde deixa a assinatura – é muito mau. É um erro de diplomacia cultural. E isto é o mais visível. É um falhanço enorme. A China está a investir nos países africanos e tem uma estratégia muito estudada. Vê-se que houve atenção, mas não no plano cultural. A imagem da China em África é evidentemente penalizada por isso. Arriscam-se a ter uma imagem de perdedores.

– É um observador atento e crítico do seu país. Hoje pode escrever sem receios em Angola?

J.E.A.- Houve mudanças significativas, apesar de a situação já ter sido melhor. Quando João Lourenço tomou posse, teve duas iniciativas importantes: abriu a imprensa, incluindo a oficial; e iniciou um processo de pacificação, recebendo personalidades da sociedade civil ligadas à oposição, não necessariamente aos partidos.

Esteve com o Luaty Beirão e o Rafael Marques e eu ganhei o prémio literário mais importante de Angola. Ao fazer isso legitimou a aproximação entre os angolanos e iniciou um processo de reconciliação mais vasto. Entretanto, sobretudo este ano, que é de eleições, houve um recuo. Há uma maior tensão política, mas que não tem nada que ver com a que se vivia com o antigo presidente [José Eduardo dos Santos].

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– A que se deve?

J.E.A.- Pela primeira vez existe uma aliança de partidos que tem possibilidades reais de ganhar e isso assusta o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), que está em guerra civil. O presidente João Lourenço tem inimigos no exterior e no próprio partido. Até acredito que seja genuinamente democrata, mas existem muitas pessoas no partido que não são.

– A oposição é uma alternativa?

J.E.A.- O que me leva a ter algum otimismo é que entrámos numa espécie de dinâmica democrática. O próprio João Lourenço, ao abrir o MPLA, obrigou a uma abertura do principal partido da oposição – a União Nacional pela Independência Total de Angola (UNITA), que se aliou a outras forças políticas. Uma delas tem como presidente Abel Chivukuvuku, um político extraordinário, capaz de fazer pontes e um grande diplomata. Esta coligação surge como uma alternativa viável. Ninguém, nem mesmo o MPLA, tem dúvidas que se houver uma alternância, não será um desastre.

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– Vive-se melhor em Angola?

J.E.A.- Não. É uma das razões pela qual João Lourenço se encontra numa situação tão má. Há um grande descontentamento social.

– E o povo, tornou-se mais exigente?

J.E.A.- A sociedade civil em Luanda, que é uma cidade enorme e com muito poder em Angola, é muito mais exigente, mais combativa e mais crítica. Áreas e famílias nas sociedades urbanas que sempre votaram no MPLA, estão a exigir mais. Houve uma sofisticação.

– O contexto será propício a novas escritas? Há livros na calha?

J.E.A.- Estou a trabalhar numa biografia sobre o Abel Chivukuvuku. Foi uma proposta dele. É uma personagem muito romanesca. Resistiu a duas quedas de avião, a um saque em Luanda. É um sobrevivente, um homem que atravessou toda a história recente de Angola e de África e, como tal, uma figura fascinante para um escritor.

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