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“Estarei onde o povo estiver”. Ou não

Ricardo Oliveira Duarte

A vista do Pão de Açúcar e do Cristo Redentor no Rio, as praias de Fernando Noronha, o Pelourinho e o Elevador Lacerda em Salvador, as cataratas na Foz do Iguaçu, a arquitetura de Niemayer em Brasília ou o verde exuberante da Floresta no Amazonas. A riqueza histórica, a literatura brilhante, a música genial, a culinária apaixonante, a agricultura de excelência, a criatividade do marketing, o fulgor paulista da maior economia da América Latina. O sorriso das pessoas, o gingar dos corpos ou o Português açucarado. A imagem que o Mundo tem do Brasil passará em boa parte por aqui. Mas até quando?

No meio de tudo isto ainda se ouviu um “e daí? Lamento”, perante o número de mortos por causa de Covid-19 na ordem dos milhares, ou um “sou Messias, mas não faço milagre”

O Presidente sem máscara, montado num cavalo da Polícia Civil, acenando a centenas (milhares?) de apoiantes, aglomerados, grande parte também sem máscara, misturados com cartazes a exigirem intervenção no Congresso e no Supremo Tribunal Federal (STF) ou insultando os seus membros. Um grupo de apoio ao Presidente munido com tochas e de máscara na cara, a gritar insultos, à porta do STF, contra os juízes. O Presidente à porta do Palácio da Alvorada a mandar calar os jornalistas, a dizer que “chega, porra!” sobre a ordem do Supremo Tribunal Federal para que aliados de Bolsonaro sejam investigados. O Presidente, que não será acometido a grande mal devido ao histórico de “atleta” por uma qualquer “gripezinha, ou resfriadinho”, líder do quarto país do Mundo com maior número de mortos por causa do Covd-19, o segundo país no Mundo com o maior número de infectados. O Presidente que convocou uma reunião de emergência do Governo por causa da tal investigação ordenada pelo STF sobre “fake news”, notícias falsas, que afecta vários apoiantes dele, mas que sobre a pandemia, na reunião de cerca de duas horas que foi tornada pública há dias, ele e os seus ministros falaram 19 minutos sobre o tema, e o ministro da Saúde de então, o segundo que caiu durante esta crise do novo coronavírus, exactos 3 minutos e 44 segundos. Reunião na qual o ministro da Educação chamou “vagabundos” aos juízes do STF e disse que deveriam ser presos, a ministra dos Direitos Humanos afirmou que os Governadores e Prefeitos (presidentes da Câmara em Portugal) deveriam ser presos e o ministro do Ambiente sugeriu aproveitar que a comunicação social estava distraída e só falava do coronavírus para passar a “boiada” e aprovar uma série de reformas infralegais, e não só no que diz respeito ao Ambiente, mas também noutros ministérios. No meio de tudo isto ainda se ouviu um “e daí? Lamento”, perante o número de mortos por causa de Covid-19 na ordem dos milhares, ou um “sou Messias, mas não faço milagre”.

Este domingo, depois da tal volta a cavalo, o Presidente escreveu no Twitter que estará “onde o povo estiver”. Invariavelmente, nos fins de semana, Jair Bolsonaro passeia por Brasília ou ali perto, vai a padarias, sem máscara, o que vai contra a indicação do ministério da Saúde do próprio Governo, tira fotos com apoiantes, sendo vários crianças e idosos, e vai às manifestações, mostrar apoio. O Distrito Federal, do qual Brasília é a capital, tem pouco mais de dois milhões e meio de habitantes. O Brasil tem cerca de 220 milhões de pessoas… É inevitável perguntar: qual povo?

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