Início » A rachadinha abriu uma fenda que pode deitar a casa abaixo (?)

A rachadinha abriu uma fenda que pode deitar a casa abaixo (?)

Ricardo DuarteRicardo Oliveira Duarte*

O Efeito Borboleta, ou “dependência sensível das condições iniciais” dentro da Teoria do Caos, refere-se às consequências, por norma grandes ou graves, que pequenas alterações no início de algo poderão ter no resultado final. Não sendo propriamente uma borboleta, a apreensão de um telemóvel e um bloco de notas na casa da mulher de Fabrício Queiroz, no Rio de Janeiro, em dezembro de 2019, acabou por se revelar exactamente isso, uma bater de asas, e provocar um tufão em Brasília.

Flávio Bolsonaro, senador e filho do Presidente do país, Jair Bolsonaro, um dia depois da dita operação de apreensão e busca em casa de Márcia, a mulher de Queiroz, e porque as buscas foram no âmbito de uma investigação ao próprio Flávio, gravou uma mensagem nas suas redes sociais na qual criticava o juiz que autorizou a operação classificando a apreensão do telemóvel como “inócua”. Não podia estar mais enganado…

O que vai ler a seguir poderá, em alguns momentos, assemelhar-se bastante a um guião de telenovela, parecer que quer imitar o filme Tropa de Elite ou rivalizar com uma série espectacular qualquer da Netflix. Mas não, é mesmo um resumo muito resumido das páginas da decisão do juiz Flávio Itabaina Nicolau que determinou a prisão de Fabrício Queiroz.

Queiroz foi durante 11 anos assessor, motorista e segurança de Flávio Bolsonaro, quando ele era deputado na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ). Durante um ano e meio Fabrício Queiroz foi investigado por alegada participação num esquema de “rachadinha” na ALERJ liderado por Flávio. Basicamente, a rachadinha consiste num esquema em que vários funcionários, muitos deles fantasma, que nunca exerceram verdadeiramente a função, repassavam parte do salário para o assessor, que por sua vez transferia, em dinheiro, os valores para o deputado. Transferia não no sentido literal, por vezes essa transferência consubstanciava-se no pagamento das mensalidades da escola das filhas de Flavio, em dinheiro. Isso, por exemplo, aconteceu 53 vezes.

E talvez a parte menos inócua mesmo seja a de que eles, telemóvel e bloco, levam o inquérito do MP do Rio a apontar que o filho do Presidente do Brasil

Ao todo, lê-se no documento amplamente divulgado pela comunicação social brasileira, foram desviados quase 3 milhões de reais, mais de meio milhão de euros.

Fabrício Queiroz foi agora detido porque, diz o Ministério Público (MP), estava a interferir nas investigações ao ameaçar testemunhas e adulterar provas. O antigo assessor de Flávio Bolsonaro estava em Atibaia, no interior de São Paulo, na casa de Frederick Wassef. Wassef é agora (desde há dois dias) ex-advogado de Flávio Bolsonaro e de Jair Bolsonaro.

Voltando à rachadinha.

A mãe de Adriano da Nóbrega e a namorada fizeram, diz o MP, parte desse esquema, “trabalharam” no gabinete de Flávio Bolsonaro. Ora, e quem é Adriano da Nóbrega? Ex-capitão do BOPE, acusado pelo MP do Rio de chefiar uma milícia e um grupo de extermínio e cujo nome foi já várias vezes associado ao caso do assassinato de Marielle Franco, vereadora do PSOL na ALERJ. Adriano da Nóbrega foi homenageado por Flavio Bolsonaro.

Aquele telemóvel e aquele bloco de notas foram tudo menos inócuos. Foram a base de tudo o que agora vem a público como argumento do Ministério Público para investigar advogados, políticos, polícias e milicianos, todos envolvidos em esquemas que só podem fazer o argumentista de Tropa de Elite pensar que mostrou uma muito pequena parte do drama que vive o tão maravilhoso Rio de Janeiro. E talvez a parte menos inócua mesmo seja a de que eles, telemóvel e bloco, levam o inquérito do MP do Rio a apontar que o filho do Presidente do Brasil, o homem que está presente em inúmeros atos oficias da presidência da República do Brasil, hoje senador no Senado Federal brasileiro, é o “líder” de uma suposta organização criminosa.

Flávio Bolsonaro nega todas as acusações, dizendo-se “alvo de um grupo político que tem patrocinado uma verdadeira campanha de difamação.”

Em Brasília, na sequência do autêntico tufão que se revelou a prisão de Fabrício Queiroz, que para além de ter trabalhado para o filho aparece em inúmeras fotos com o Presidente, Jair Bolsonaro reuniu com alguns ministros para discutir o assunto, por considerar que se está a montar um “cerco jurídico” para o retirar do cargo.

O Brasil estava nesse dia, quinta-feira 18 de junho, muito perto do miserável número de 50 mil mortos por causa do novo coronavírus, e um milhão de infectados. Entretanto essas marcas foram ultrapassadas.

Para filme, série ou novela o guião seria bom. A questão, a tragédia, é que é tudo demasiado real e preocupante.

Não há por aí Capitão Nascimento que ajude a um final feliz?…

*Jornalista

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website